"Professores e policiais não recebem promoções e progressões que até o fim do ano contabilizarão cerca de R$ 500 milhões"



Barricadas de novo

Se havia a alegada capilaridade nas forças que apoiavam Lula e seus seguidores, dentre eles a presidente afastada Dilma Rousseff, até agora não funcionou. Apesar do esforço em configurar a ação parlamentar como um golpe, o que não convence dada a ritualística formal visível no calhamaço de 500 páginas do ex-ministro José Eduardo Cardoso das razões finais invocadas, era de esperar-se, até pela ocupação do aparelho de Estado, que houvesse mais resistência do dispositivo defensivo, algo mais do que o bloqueio de estradas pelo MST e Via Campesina e da ocupação de órgãos públicos. Afinal em que lugar estava aquele dispositivo mais radical para a hipótese do confronto?
Não se percebe em nenhum dos dois lados, quer o de Michel Temer, quer o de Dilma, empenho profundo na causa e capaz de repetir o havido em 2013 com aquela legião de engajados não partidários tomando conta das ruas. Assim mesmo estão marcadas para hoje manifestações contra o impeachment, na base do "Fora Temer", essa na praça 19 de Dezembro e outra de apoio à Lava Jato na Santos Andrade. É mais palatável o "Fora Temer" do que o "Volta Dilma", da mesma forma que apoiar as ações da Justiça Federal, que anteontem enquadrou Lula em ato de juiz do Distrito Federal, é mais relevante do que ficar na falsa opção entre o interino e a afastada, ambos com algum tipo de complicação e também de aguda responsabilidade na crise que afunda o Brasil.
Quando tivemos algo mais parecido com um golpe, o de 1964, olhado por alguns autores brasilianistas como revolução, percebeu-se que Jango Goulart não tinha nem dispositivo militar, como o de Assis Brasil, e muito menos operário-estudantil-camponês, como sugeria a esquerda festiva da Une e correlatos. Mas tudo foi precedido de uma batalha nas ruas: ao comício das reformas na Central do Brasil, com perto de 350 mil pessoas, houve a resposta de dezenas de desfiles e carreatas da Marcha com Deus pela Liberdade nas principais capitais do País, com multidões que iam de 500 mil a 1,5 milhão. Uma goleada nas barricadas, claro que pacientemente trabalhadas com apoio da CIA-FBI e arrebanhando pregadores ianques como o padre Peyton.
Confiar no berreiro das ruas nem sempre é seguro e difícil, também uma causa que une e que não esteja prenhe de sentido personalístico. Ademais, teremos ainda os Jogos Olímpicos para dissipar e algo menos engajável ainda nas eleições municipais, nas quais o lulopetismo já não terá a vitalidade que o levou a mais de 12 anos no poder e estará rigorosamente em clinch com seus quadros presos ou indiciados como se deu com sua principal liderança.

Mosquito

Cometi um erro, dias passados, ao citar o anofelino como transmissor da febre amarela quando o é da malária, que já foi uma das tragédias do passado. A correção veio de Júlio Aranda Delena, agente de saúde de Guaíra. Lembro dos mata-mosquitos na minha infância que localizavam os mosquitos e os coletavam. Alceni Guerra, quando ministro de Saúde, tentou restabelecer algo parecido com agentes em bicicletas em combate a endemias.

Tensão

Não são apenas bailarinos e músicos do Teatro Guaíra que vivem sob tensão em função do estrangulamento fiscal. Professores e policiais não recebem promoções e progressões que até o fim do ano contabilizarão cerca de R$ 500 milhões. O pior é que o não pagamento represa os pleitos de aposentadoria. A hora em que as folhas forem regularizadas só entre delegados de polícia teremos mais de 20 aposentados o que exigirá de pronto mais concursos. Sem grana isso é impossível.

Repique

Pouco depois do pleito do ex-presidente Lula na ONU suscitado pelo risco de ser preso e denunciando grave lesão de direitos humanos, o que expõem toda a malha institucional brasileira e não apenas o Judiciário, houve o enquadramento do denunciante por um juiz federal de Brasília e mais o ex-senador cassado Delcídio do Amaral, ex-líder do PT na Câmara Alta, por obstrução da Lava Jato. O ciclo que vivemos é punitivo, como dizem alguns especialistas da sociologia e do direito, e a quadra é pouco favorável à advocacia criminal e isso, desde antes da Lava Jato e no curso do mensalão em que não houve delação premiada, mas que na contundente denúncia de Roberto Jeferson tivemos a deflagração do processo que encontrou na fase atual a sua consolidação. Um dos maiores criminalistas de todos os tempos, Marcio Thomas Bastos, não conseguiu segurar o processo.

Folclore

O poeta Liberalino Estevam volta e meia se oferecia para fazer trovas, algumas em versos alexandrinos, para filhos e esposas dos seus clientes, aqueles que compravam revistas de sua agência. Um dia se aproximou de um deles e se mostrou disposto a fazer um soneto e ouviu a advertência: "Veja bem que rima você vai fazer com minha querida Marilu!".

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