Herói importado
Em "Galileu, Galilei", peça do teatro político de Brecht, há a reflexão sobre a necessidade de haver heróis, algo que nosso dia a dia recoloca ante a arregimentação havida em Curitiba em torno da presença de Mujica, ex-presidente do Uruguai, em seminário sobre a democracia na América Latina, ao gosto dos nossos grupos de esquerda ora sem personagens para o papel no cenário brasileiro, já que sobrenadam no lamaçal da Lava Jato, muitos deles como o principal, José Dirceu, na cadeia. E não está preso em martírio pela causa e sim porque botou a mão no jarro como os outros também o fizeram em compulsão assustadora.
Obviamente um Mujica, guerrilheiro e que como tantos dos nossos chegou ao poder, é uma figura que não se confunde com a de outros dirigentes tão destacados pelo lulopetismo como Chávez ou Maduro da Venezuela e ainda os da Bolívia e Equador. Obviamente o ato faz parte de uma série de manifestações para checar a legalidade do impeachment de Dilma Rousseff, mobilização semelhante a que se tentou quando a Corte Suprema do Paraguai derrubou o padre Lugo da presidência, herético e erótico, no decorrer da qual, com a ajuda indispensável do Brasil, laranja hegemônico do momento, aplicaram sanções ao país na opereta do Mercosul como se esse ato fosse vital.
Mujica é expungido de um DNA comum a latino-americanos mostrando existir uma esquerda sem o DNA lastimável da praga populista, ainda que densamente anticapitalista na linha do anticonsumo, que sempre soa ingênua na cultura que praticamos. O fato é que se não houvesse a ação da Justiça no caso do padre presidente e no do Brasil, certamente, os consagrados personagens de ontem seriam os mensaleiros e reincidentes do petrolão com José Dirceu, Genoíno olhados como se fossem Fidel Castro e Guevara descendo de Sierra Maestra com o decálogo da "libertação".
Como essa convocação se insere na linha final de protestos (o que foi notado no berreiro do "Fora Temer" pela massa de aficionados), Mujica, na fala pela manhã no Círculo Militar, não abordou o caso brasileiro e a expectativa era que o fizesse à tarde em entrevista na APP Sindicato, derradeiro QG da resistência dilmista, como se isso mudasse a marcha inexorável dos acontecimentos que pode ser tudo menos essa falsa opção que tentam nos impor entre a presidente afastada e o interino, repudiados de forma vigorosa em todas as pesquisas de opinião por tudo o que representam na aliança de ontem e no contubérnio das ações recentes sob foco do Judiciário.

Pasteurização forçada
A atitude do presidente interino Michel Temer, convocando a imprensa para registrar o seu encontro com a mulher e o seu filho, Michelzinho, no seu primeiro dia de aula é um esforço para exibi-lo com um homem comum vinculado à família e a rotinas domésticas, jogada típica de marketing para torná-lo mais palatável, humanizado, no papel até aqui não bem ajustado de presidente, apesar do oba oba do patronato que vê nela a esperança de cortar conquistas sociais, aspiração ao longo do tempo contida, e de estabilizar o país para a recuperação.
Os tais sinais de melhora nos indicadores, entre os quais o da previsão do PIB em recuperação, não muito consistentes, geram inegável clima de otimismo conflitado pelo desemprego em massa e a persistência da inflação. Na verdade, confunde-se o desejo dos grupos supostamente beneficiados com a mudança institucional, da qual se valiam anteriormente via supressão de tributos e desonerações, com uma realidade um tanto quanto arisca a esses propósitos.
É menos repudiado que sua antecessora, posto que ambos não se ajustem ao papel de seres providenciais que tentam interpretar. Quanto à cena doméstica, forçada, é algo que um João Santana jamais faria por seu tom suburbano e de um primarismo atroz.

Mais prisões
Há uma previsão de que, em função da Olimpíada e até da necessidade de reforçar a presença da Polícia Federal no Rio de Janeiro nos esquemas de segurança, haja um momento de calmaria nas ações da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. Ontem, porém, houve uma clara sinalização em sentido contrário com a transferência de pelo menos três presos da Polícia Federal para o Complexo Médico-Penal em Pinhais, o que pode indicar que novas vagas serão ocupadas no andamento dos próximos dias. Politicamente isso também pelo sentido saneador tem um jeitinho de olimpíada moral por trazer a perspectiva de uma nova esperança pelo menos na firme punição dos corruptos em escala nunca vista. Isso é tão relevante quanto o feito das pistas e das quadras. Um recorde de políticos e empresários em cana é glorioso tanto quanto o pódio com hasteamento da bandeira e o canto do hino pátrio.

Folclore
Houve um tempo em que disputas literárias e acadêmicas no Paraná levavam as pessoas a uma postura de guerra: uma disputa entre o historiador Davi Carneiro mais a dirigente Leonor Castelano, do Centro de Letras, contra o escritor e jornalista Valfrido Piloto deu o que falar. Um dia Davi e Valfrido teriam se encontrado num velório e se hostilizavam com olhares em torno do caixão mortuário e a situação ficou tão tensa que surgiu a anedota de que o falecido chegava a olhar, ora para um lado ora para outro, tentando acompanhar os digladiantes com receio do vexame de uma troca de sopapos.

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