Remédio amargo
Num dos seus contatos recentes com lideranças empresariais, e com o claro intento de cooptá-las, dizendo o que elas gostam de ouvir, o presidente Michel Temer anunciou remédios amargos, um deles agora decodificado pela Secretária do Tesouro Nacional, Ana Paula Vescovi, em encontro com membros da Comissão de Finanças da Câmara Federal, no corte de salários nos três níveis de governo enquanto a bonança não vier. Isso já era tratado aos murmúrios e não muito levado a sério pelos políticos que não se ajustam, sob hipótese alguma, em programas de austeridade, para eles primariamente vistos como reacionários, de direita e neoliberais, portanto satanizados.

Essa cirurgia, a de mexer nos gastos estaduais e municipais, como condição "sine qua non", é indispensável ao ajuste de contas e para botar em nível de racionalidade a questão sempre postergada da negociação das dívidas. O nosso governador, que já não sabia o que fazer com a questão, encontra aí, tanto ele como seus demais colegas, uma espécie de respiro, cuidado sob aparelhos em Unidade de Terapia Intensiva.

A área constantemente, a dos dispêndios com pessoal, aqui e com mais contundência em outras unidades, supera o limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal e é submetida a toaletes imaginosas para burlar seus fundamentos, ora com a supressão de inativos, ora com pedaladas que desmantelaram, em nosso caso, a ParanaPrevidência. Como ficou demonstrado que o Paraná não tem como saldar, ao mesmo tempo, os atrasados, já em quase dois anos, em promoções e progressões, caminhando para um saldo de R$ 300 milhões, e o reajuste salarial de janeiro de 2017, essa solução externa não o livraria dos desgastes políticos mas se fundaria em razões de estratégia nacional. Na pior das hipóteses criaria entraves para sua candidatura ao Senado já severamente afetada por tudo que representou o massacre do Centro Cívico.

Não é Campari
O que vem por aí não é um amargo-doce como Campari, mas algo menos assimilável do que o lubrificante óleo de rícino, que vem da semente de mamona, eficiente até em foguetes espaciais e que Roberto Requião experimentou para agradar Lula. Dessa estória de remédios heroicos do passado, entre os quais aquele clássico da lavagem intestinal, uma frase clássica: "o que arde cura, o que aperta segura" e dá-lhe cristéis infalíveis.

Da mesma forma que os políticos a farmacologia se rende a indicações marqueteiras como a de alterar o gosto dos produtos e que lembram até rebuçados, especialmente para as crianças. Como tornar menos penoso um remédio amargo se ele te capa os ganhos salariais que funcionários públicos do mundo inteiro consideram "sagrados"? Mexer com essa sacralidade é que os políticos não gostam, ainda que no caso paranaense desviasse o foco de Beto Richa para Michel Temer, cujo estilo não se ajusta à pira dos sacrifícios, como aliás tem demonstrado em seus recuos grosseiros na luta para reduzir a Dívida Pública. Aquilo que é normal no Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, nele não se ajusta por sua compulsão populista.

Para compensar as deficiências de equipe o governador paranaense tem Mauro Ricardo Costa na Fazenda e Reinhold Stephanes na Administração e Previdência, este com a tarefa de tentar evitar que o fundo de pensão vá, como tudo indica, para as cucuias. Até porque nacionalmente como ministro da Previdência em situação anterior perdeu por um voto a questão que hoje é recolocada na mexida na idade dos aposentados. No caso paranaense trata-se de reviabilizar a ParanaPrevidência que ficou por três governos seguidos, e mais quatro meses de Lerner, sem receber a contribuição patronal que caberia ao Estado o que restringiu drasticamente o seu horizonte atuarial de 70 anos para dez, conforme cálculos mais otimistas.

Na luta para ajustar a Previdência nacional o então ministro Reinhold Stephanes sofreu nas mãos dos adversários que exploraram, também, o fato de ele próprio ter sido aposentado muito jovem na prefeitura de Curitiba. O cuidado agora deve ser o de não passar para a história como um dos que afundou o nosso tão badalado fundo de pensão, daí a confiança em sua autoridade como mediador do processo.

Já do secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, se espera firmeza em sua disposição, mesmo que irritando como poucos a classe política, de manter os controles da situação adversa ainda que o comparem ao "homem tesoura" como aquele do filme, lembrando-se que o paranaense Manoel Ribas se transformou, no vulgo, em Maneco Facão pela firmeza de sua política de cortar gastos e que afinal o consagraram no apelido luminoso.

Folclore
Algumas cenas hilariantes se deram no tal salão de arte, a que me referi ontem, diante do quadro de Van Gogh. Uma senhora da society perguntou ao marido se a peça era original ou reprodução ao que o marido, mestre universitário, respondeu pragmaticamente: "olha só, de seguro da peça o Stresser pagou mais de 400 mil!". A melhor se deu entre duas que discutiam se Van Gogh, certamente a confundir com Vão Gogo (Millor Fernandes), era nome ou apelido. O escritor Fernando Pessoa Ferreira, diretor do Guairão, debochado, que estava nas proximidades, interveio esclarecendo "ele é o Kirk Douglas" que afinal fez o papel no filme ("Sede de Viver") em que seu amigo Gauguin era Anthony Quinn.

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