Corrupto, sim; mas progressista
Lembro seguidamente de uma reflexão do último governador pensador que tivemos, Bento Munhoz da Rocha: a de que estávamos num ciclo em que as ideias enlouqueciam. É o que se percebe no cotidiano com algo que vai além da comiseração para os corruptos e busca até absolvê-los com o argumento de que são da esquerda e progressistas e que o Brasil a eles deve os degraus de avanço em igualdade social e afirmação soberana.
Há algo mais do que as chamadas indulgências plenárias da pregação católica em seu favor e tanto que o comissariado os cultiva com a certeza, daquelas que afirmam a ressurreição, de que em pouco estarão entre nós para continuidade de sua pregação terrena. Na visão, por exemplo, desses supostos revolucionários, José Dirceu persiste como um decalque de um Guevara se é que não o enxergam, numa perspectiva brasileira, como um Frei Caneca e um Tiradentes ainda no aguardo do martírio final.
Há quem até se recorde dos ladrões que foram crucificados junto com Jesus: como ele estava no meio, havia um da direita e outro da esquerda. Certamente, na cabeça desse pessoal, aquele que guardou a promessa da ressurreição pelo filho de Deus era da esquerda. Ao menos que tenham visto Dimas, o bom ladrão, com uma carga semelhante. É que há algo de imanência religiosa na forma como os correligionários os enxergam e essa condição de esquerda é um cânone libertador que os consagra para sempre: corruptos, sim, é claro numa perspectiva burguesa e dentro da lógica do capitalismo, mas progressistas, da esquerda e da democracia popular. Haja Engov.
Embora não tratem todos da mesma maneira, pois é visível o culto a alguns deles e que não se estende a outros como o André Vargas que, de repente, de homem de primeira linha na hierarquia vertical partidária viu-se transformado, pelo abandono, num cadáver insepulto.

Um bom momento
A democracia, que se reafirma nas ações da Lava Jato e aí se engrandece, teve dois bons momentos ontem na instância parlamentar, na eleição de Rodrigo Maia para conduzir a presidência da Câmara e na derrota na CCJ das manobras de Eduardo Cunha. Nem sempre é assim, mas feitos como esse compensam e reafirmam, ainda que episodicamente, certa autonomia da Câmara Baixa derrotando Temer e Cunha, aliás abraçados

Alerta
A prisão do prefeito de Foz do Iguaçu, ex-deputado Remi Pereira, como decorrência da missão "Pecúlio" da Polícia Federal e sua substituição pelo vice, marcam um ritual que pode significar novas baixas na classe política tão alcançada pelos acontecimentos e normalmente apoiada pelos liames da sociedade cartorial que tenta tudo acomodar. Raro é um caso em que o enquadramento se dê por vias locais com nossos promotores e juízes. Tanto que operações como a "Publicano" e a "Quadro Negro" são incomuns como de resto o Tribunal de Contas jamais reprovará balanço do governo estadual, embora seja mais duro com alguns prefeitos.

Tocha
Apagar a tocha olímpica, em que se pese seu aspecto dominantemente infantil, foi tentada duas vezes por um adolescente e depois por um adulto no Largo da Ordem: o piá não sofreu punição, um delicado afastamento, o mais velho foi solto depois de firmar ajuste de conduta.

Agasalhos
Num dos desdobramentos do exame das relações entre fiscais e a primeira-dama ficou demonstrado que na campanha de agasalhos essa mediação rendeu 70 mil peças e sem eles o número caiu para 700 em função da "Publicano". É a teoria do cobertor curto, aplicada ao futebol: se ataca demais a defesa se torna mais frágil e se cobrir muito a cabeça os pés vão sofrer com o frio.

Sem recuo
Há uma decisão interna no governo: se houver greves, os dias parados não serão pagos e as faltas ao trabalho nas turbulências no Centro Cívico serão rigorosamente descontadas. A reação corporativa do professor Lemos não sensibilizou o governo que entendeu que com sua omissão vitaminou a APP e a tornou arrogante e soberba. Fez, portanto, uma autocrítica, o que não se deu com a APP, ainda que essa tenha razão em brigar pelos atrasados, que numa perspectiva de classe soa indeclinável .

Folclore
A missão "apagar a tocha olímpica" tem tudo do "não vai ter Copa", posto que aquele parecesse mais articulado e com maior proselitismo e capaz de gerar a ciclópica vaia na presidente. Esse apagar a tocha tem tudo de infantil e lembra até poeticamente o palhaço Espingarda (músico e malabarista tirando sons do corpo cheio de guizos) tentando apagar a lâmpada que ele chamava de Maria Luisa ao subir numa escada e assoprá-la como se fosse velas de um bolo de aniversário. Num livro sobre a família Queirolo, houve uma omissão relativamente ao Espingarda, o Múcio, que transformava um serrote num violino ao mesmo tempo em que dava saltos mortais. Quando ele morreu escreveram "Maria Luisa apagou".

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