LUIZ GERALDO MAZZA
Tudo é provisório
Não apenas Dilma afastada e Michel Temer empossado são provisórios. Até a notícia de impacto de ontem, a renúncia de Eduardo Cunha da presidência da Câmara Federal tem sentido provisório para impedir a consumação, essa ora adiada, da perda de mandato. Coloque-se em cena o encontro dele com o presidente interino e ter-se-á o diagrama da operação. Cunha é um dos principais quadros do PMDB e dotado da mais alta expertise como operador, inclusive em áreas internacionais, e seguramente terá influência decisiva na eleição do seu substituto. Assim, pois, sua renúncia, pelo fato de assumir algum ônus, em meio aos incidentes no processo de cassação, soa como uma negociação em cima de um objetivo maior para garantir o impeachment e também fortalecer as bases para Temer.
E tudo ficaria ainda mais provisório se entrasse na agenda judicial o processo contra Dilma-Temer em função das denúncias já formuladas no Petrolão. Teria um sentido permanente - o de expor a falsa opção que se pretende entre os dois para o futuro do país e que deixa muita coisa pendente.
Só pedágio
Única esperança no momento, em que pese a perspectiva do tal empréstimo de R$ 1,5 bi ser liberado, é apostar no pedágio, fonte de vida de um governo sem obras. Para a duplicação da rodovia dos minérios (esquema de parceria público-privada com a Votorantin), a justificativa de inadequação do projeto a respeito pela área técnica. Todas as concessões ficarão sob cuidados da Casa Civil em decisão recente, único setor visível com obras.
Estratégicos
Operadores políticos do governo ocupavam os trinta cargos estratégicos, denunciados como anômalos pelo sindicato dos engenheiros, e removidos por decisão judicial contra qual a Sanepar promete recorrer, alegando que esse contingente representa 0,5% da força de trabalho da empresa, mas não expressando quanto se define como custos. Engenheiros, como categoria, não concordam com esses aspones meramente políticos. A reação da Justiça pode indicar, como já se dá em outros casos, o fim da cultura interna de acertos por ação da sociedade cartorial.
Resistência civil
Colombo viveu ontem experiência intensa de resistência civil com os usuários impedindo a saída dos ônibus em protesto contra mudanças feitas pela Comec e que mexeram com os hábitos condicionados da população. Pela manhã, o bloqueio operou e a liberação só se deu por volta das 13h30. Consequência daquela ruptura, lá atrás, por Gustavo Fruet que exigia mais grana estadual no subsídio do sistema e não aceitou a pesquisa origem-destino que fundamentava a tal redução de custos.
Encenação
Da mesma maneira que o governo respondeu à insolência do toque de recolher da Cidade Industrial com aparatosa mobilização da Polícia Militar, também ontem a Ecovia lançou na BR-277 o programa "Serra Segura" fazendo fiscalização mais centrada em cima de caminhões de carga para apurar suas condições de segurança. Porta arrombada (com a tragédia de domingo, e seguida de providências e rituais como a prometida solução de áreas de escape), tranca de ferro, como leciona o adágio popular. Aliás, tudo é adágio, que verseja com pedágio, mas como lecionava Drummond de Andrade, é rima e não solução.
Serraglio
Uma das soluções colocadas agora para a presidência da Câmara Federal seria o paranaense Osmar Serraglio não hostil a Eduardo Cunha, hoje no exercício da presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Casa e com papel de destaque no entrevero da Comissão Ética. Uma das credenciais históricas do político de Umuarama foi o seu desempenho na relatoria da CPI do mensalão, ganhando destaque pelo equilíbrio e conhecimento jurídico revelado. Também a sua resistência no PMDB regional ao domínio do senador Roberto Requião insere-se como um dado importante. No caso do mensalão, sua postura foi magisterial num momento que abriu a política brasileira e sua administração ao novo estágio de combate à corrupção. Por sinal que, no episódio, outro nome paranaense de destaque, especialmente nos debates, foi o então deputado federal Gustavo Fruet.
Marola
Manifestação dos taxistas contra o Uber, embora ganhando espaço no noticiário, não significou qualquer avanço em relação à sua desejada erradicação. O dossiê foi levado à Procuradoria da República e à Polícia Federal e ficou nisso. O juiz Sérgio Moro declarou a sua incompetência para tratar do assunto em nota discreta. Pelo jeito, a luta continua e o Uber também. Aqui quem se omite, como já disse, é a Urbs, a dona do pedaço e que quando checada tira o corpo, como faz nesse caso específico já que ela é o poder concedente.
Folclore
Um advogado do Estado foi tratar de um caso com um juiz e esse respondeu que era incompetente, ao que o causídico replicou que não fosse tão modesto. O juiz, já meio perdendo a paciência, clareou que a incompetência era "ratione materiae" em razão da matéria ao que ouviu do bacharel a observação de quem não levasse tão longe a sua humildade, valendo-se do latim.





