A boa intenção
De boas intenções até o inferno está cheio. Isso vem a propósito de medidas moralizantes como a que impede doação de pessoa jurídica na campanha e essa outra, já abordada ontem, da exigência do perfil técnico para os que comandam estatais. A primeira é inaplicável e a segunda não rende os efeitos esperados, até pela lembrança de que diretores como Renato Duque, Nestor Cerveró, Jorge Zelada eram dos quadros da Petrobras que ajudaram a detonar.
Tinham, portanto, perfil técnico ou administrativo. A solução encontrada é demagógica e de puro marketing para mostrar ajuste com a revolta da população e lembra, de certa forma, a anedota do marido traído e que reagiu trocando o sofá da traição.
Por isso acho que as estatais devem ter seu corpo de doutrina, seu decálogo. A Copel, por exemplo, o tem, o que não a impede de ser atropelada por decisões políticas afrontosas aos seus interesses como citei aqui, ontem, aquela participação ridícula no leilão de estradas. No caso da baixa de custos da eletrificação rural no governo José rixa, seu corpo técnico, fiel às normas, resistiu porque tinha uma estratégia bem fincada a respeito e gerara muitas delas inscritas na ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. Houve conflito, mas políticos acabaram levando a melhor pela circunstância de os fornecedores de postes de concreto, para não perderem a escala dos seus negócios, concordarem em baixar seus preços pela ameaça concorrencial do produto de madeira tratada comandada por secretários à esquerda.
Nesse mix gerencial, um pouco de política, desde que não ladra como se deu no Brasil com a ocupação do aparelho de Estado, pode dar um bom caldo, menos economicista e mais social, portanto menos técnico. Controle social, conservados seus limites, não é um mal.

Paulo Bernardo
No momento em que Nestor Cerveró põe a tornozeleira para sair da cadeia, quem entra é Paulo Bernardo, ex-ministro de Planejamento e de Comunicação, um dos melhores quadros do PT e o mais habilitado a pleitear o governo pela legenda. Faltava-lhe densidade eleitoral que sobrava em Sameck e na própria esposa Gleisi Hoffmann. Equilibrado, não dado a explosões radicais, era uma figura saliente, que agora enfrentará o martírio dos seus companheiros delatados e presos. Como se vê, o fatiamento da Lava Jato, temido por muitos, opera no novo estilo da justiça brasileira e com o mesmo rigor.

Uber
A União dos Taxistas procurou a Polícia Militar para pedir maior fiscalização dos operadores clandestinos, vale dizer o Uber. O assunto não é de sua alçada obviamente, mas como há uma denúncia de que boa parte dos motoristas é da PM da ativa ou da reserva essa é uma forma sutil de sugerir a existência da irregularidade. Pode ser paranoia, mas pode ter fundamento.

Protesto
Outro protesto, o das autoescolas, ontem no Centro Cívico, contra a imposição pelo Contran do simulador que tem alto custo e por isso provocado o adiamento de sua instalação e ainda por uma alegada pouca eficiência na formação do condutor. Data é 1º de julho, daí o chio dos interessados na tentativa de obter nova prorrogação.

Buraco
No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. Agora Curitiba não está às voltas com o espanto do Drummond de Andrade e sim com a cratera aberta na Praça Carlos Gomes. Setor técnico avisa que o tormento seguirá por três semanas. Curitiba domina mal sua face subterrânea e isso se capta não apenas nesse episódio em função da bacia hidrográfica do rio Ivo. No Juvevê, um curso d'água do mesmo nome é um desafio para a engenharia municipal, tanto que já refez o asfalto por cinco vezes na faixa exclusiva do biarticulado. E ainda insistem em metrô quando há tanto desconhecimento. Imaginem se acham um cachimbo de cerâmica pré-colombiano numa escavação a alaúsa que a turma dos arqueólogos, comandada pelo Igor Schmiz, fará com a interdição das obras.

Resíduos
A prefeitura da Capital faz convocação em julho a empresas interessadas na coleta, reciclagem, tratamento e aproveitamento industrial dos resíduos domiciliares e industriais. Não há mais problemas desse porte (água, energia, transporte) de caráter local, tudo é metropolitano e assim deve ser encarado. Tentativas anteriores para uma exploração metropolitana goraram por causa do entredevoramento entre empresários, quase sempre aliados com grupos forâneos, com seguidas liminares e mediações que frustraram o tal consórcio desejado. Pelo jeito, Gustavo Fruet quer adotar o que já fez no transporte coletivo com a ruptura por causa de tostões.

Folclore
Anos passados, em jogo no Durival de Brito entre Flamengo e Portuguesa de Desportos, a neblina era tanta que foi suspenso como nos Esteites aquele entre Chile-Colômbia e o do Chapecó contra o Atlético. Lembro que a névoa sorrateira cobriu primeiro a galera das gerais e depois as arquibancadas. A pobreza, que só ganha na lenda, pelo menos neste caso concreto, conseguiu empatar.

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