Despolitizar a política
Uma das malandragens da praça é de atribuir sentido eufemístico às palavras, especialmente as mais contundentes: assim quando Judiciário recupera atribuições essenciais, costuma-se dizer que está sendo "politizado" com o propósito de colocar tal postura não inerente aos seus propósitos mais abrangentes. Foi o que se disse, quando em função de vácuo legal, o Supremo Tribunal Federal deu o entendimento, mais do que interpretativo, em casos como o da Lei de Imprensa, tida como incompatível com a Carta de 1988 e também num episódio mais agudo, o da aceitação do casamento homoafetivo, que obviamente levado a um referendo teria todas as condições para ser derrotado.
Foi, em função desse ativismo, mais do que as suas decisões como a do mensalão e petrolão, que se ungiu o termo "politização", como se tais entendimentos atingissem pressupostos fundamentais do ordenamento jurídico e os desfigurando.
Agora as concessionárias do pedágio estão insinuando que submeter a questão contratual ao arbítrio do legislativo ou de canais de representação popular é politizar a questão, como se na semântica isso significasse uma deturpação. A tortuosidade etimológica se repete com o verbo criminalizar: quando o MST invade propriedades, mata o gado, incendeia instalações e é criticado por essas transgressões, alegam que querem "criminalizar" os movimentos sociais ou, levando para o nosso cotidiano das roubalheiras da maioria esmagadora dos políticos, insinuando que se trata de manobra para "criminalizar" a política em que os mocinhos seriam os vilões do desfile diário da Lava Jato e bandidos os que se opõe a tudo isso.

Saída
Uma hora os que invadem, mesmo que haja tolerância a quem cabia reagir, têm que deixar o local ocupado. Sempre é assim: passada a razão circunstancial, as coisas voltam ao normal. Tudo decorre de uma interpretação decorrente do novo momento brasileiro em função da Constituição de 1988, em que o princípio da liberdade se sobrepõe ao da autoridade, o que é manifestamente captado no exercício de pressão e participação sem limites, mesmo que claramente afrontosos à legislação. Isso também cansa, sofre estresse, coisa que vimos em 1988, quando abriram a Assembleia Legislativa para ocupação pelos professores, uma saída menos traumática que seria a invasão, tentada e rechaçada, do Palácio Iguaçu. Ficaram vários dias mas tiveram um momento que sair, tal qual se deu agora com o grupo que ocupou as instalações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Curitiba. É claro que justificaram a saída alegando que é mais efetivo o combate ao "golpe" nas ruas, o que indica uma possível recarga. Nunca se viu na história um golpe submetido a tantos rituais e oferecendo tantas chances de reversão, mormente com a presidente deposta deitando e rolando em manifestações, inclusive nas sessões em que seu advogado de defesa atua com grande desenvoltura, logo ele que Lula queria ver fora da pasta da justiça por não dar uma dura na polícia federal, da qual foi afastado.

Multa
Subiu a multa de R$ 1 mil para R$ 1,9 mil a quem depredar o patrimônio público. É o ativismo da nossa Câmara Municipal em sua legisferância desenfreada.

Amada amante
Nelma Kodama, condenada a 18 anos na Lava Jato, aquela que cantou "Amada, amante", em função de delação premiada, passa à prisão domiciliar com tornozeleira. Canta à vontade.

Pode?
É incompreensível que num centro médico importante como a Cruz Vermelha, hoje associada ao Positivo no ensino médico, tivesse entre os seus um falso profissional, boliviano, ontem preso. Felizmente tinha funções de observador. Mais médicos, uma ova!

Arrastão
Um órgão de orientação econômica ao consumidor detectou aumentos bárbaros nos alimentos como arroz (46%), feijão (70%), leite (71%). Alguns sinais de melhoria na atividade industrial e na exportação, embora significativos, não sinalizam para uma melhora de disposição do público ante o governo Temer cuja face negativa está no plano político, ainda mais com as revelações de comprometimento com propinas e a circunstância de o seu estafe ministerial ter vários investigados, dos quais três já caíram.

Por um voto
A tentativa de salvar a previdência brasileira por Reinhold Stephanes, perdida por um voto, é lembrada quando se sabe que se lhe atribuirá idêntico papel em âmbito menor, o do fundo de pensão estadual, circunscrito à sua secretaria. A atrofia dos recursos (a parte patronal não honrada pelos governos e só recentemente retomada por Beto Richa) reduziu em muito o seu horizonte atuarial.

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