"Percebe-se a inocuidade dos organismos existentes de controladoria que existem precisamente para não funcionar"

O fim da história
O que está acontecendo neste preciso momento no Brasil é uma espécie de apocalipse da sua classe política tal a capilaridade da corrupção e a sua abrangência alcançando toda a gama de praticantes da área. Algumas obviedades como a de que é impossível exercê-la sem esses mediadores que aparecem no processo brasileiro, desde o mensalão com alguns como Janene e o doleiro Yousseff, com protagonismo bem anterior desde a CC-5 Banestado sob Lerner.
Como não se trata de coisa nova, mas de hábitos estratificados e apenas mascarados com rituais da aparência, já que tudo é tido como normal e se ajusta à práxis, a massa de revelações sugere que não há como fazer política fora desse estilo. A questão é que no andamento das delações premiadas percebe-se a inocuidade dos organismos existentes de controladoria e corregedoria que existem precisamente para não funcionar, uma espécie de "non sense", o que se aplicaria inclusive aos tribunais de contas que, somente sob pressão dos acontecimentos, ameaçam cumprir suas prerrogativas. Ressalve-se parcialmente o Tribunal de Contas da União que tem tido, pelo menos nessa altura dos acontecimentos, papel relevante na investigação das alegadas infrações presidenciais ao Código de Contabilidade Pública.
O suicídio coletivo, aquele da convocação dos fanáticos de Jim Jones, parece estar em andamento, já que nem os mitos da suavidade e de causas quixotescas se salvam por terem sujado as mãos nas propinas. A dificuldade em saber o que formalmente drenou para as campanhas com consistência legal do que se configurou como Caixa Dois ou, como diziam Delúbio Soares e outros, "recursos não contabilizados", acaba confundindo o venial com o mortal e com uma opinião pública hoje condicionada a ver tudo como patológico, dantescamente um inferno sem remissão.
Aquilo que Fukuyama, em seu celebrado "paper", chamou de "fim da história" sem qualquer implicação hegeliana, quando da queda do Muro de Berlim, aplica-se numa certa medida ao momento brasileiro. Será difícil aceitar, depois de tudo o que se viu, o que se faz como rotina no exercício da política brasileira, a não ser que mais uma vez as artes circenses do ludíbrio e da mistificação se imponham para reafirmar o império do mal, fantasiado de normalidade.
Como não chegamos ao termo da história com o fim do bloco socialista (sedimentos como o da Coreia do Norte, embora o acesso ao poder nuclear, são pouco significativos), já que o terrorismo se apresenta como um desafio em função da pregação ideológica e da atuação beligerante do Exército Islâmico, inclusive com a incorporação de casos como o da boate de Orlando, é visível, agora sim, mais do que o heroísmo guerrilheiro do Vietnã, que um homem ou um grupo deles, isolados ou associados, possam, em nome da intolerância religiosa, se expandir e recriar o clima da Guerra Fria e com um potencial de proselitismo assentado também nas medidas de segurança que acabarão reduzindo os níveis de liberdade por força da paranoia de que a qualquer momento possamos ser alvo de um ataque.

Cantochão pobre
O momento exige dos políticos mais clareza, dado o nível de comprometimento com a fraude e a corrupção que atinge a "corporação", e tudo o que se fizer em termos de austeridade será um ganho, dada a resistência da fauna a sacrifícios. O Paraná dá um bom exemplo no seu ajuste fiscal numa hora em que outras unidades federativas encontram dificuldades até para questões essenciais, como manter serviços públicos e pagar os servidores.
Evidente que aqui também há problemas e que boa parte da recuperação fiscal se deve aos recursos tomados da Paranaprevidência, seja no saque de R$ 640 milhões (que vem sendo pago em 60 prestações), seja naquela transferência de 33 mil servidores para os seus fundos descapitalizados porque os governos não pagam o aporte patronal e isso desde o último quadrimestre de Lerner. Foi a partir do ataque ao fundo de pensão que o governo estadual passou a cumprir a sua parte, o que não recupera o desgaste ao longo de três períodos governamentais, o que reduziu o seu horizonte de sobrevivência para nove ou dez anos quando, se tudo fosse feito regularmente, estaria hoje em 70 anos.
É claro que se temos esse argumento - o de ajuste fiscal razoavelmente bem feito - há algo mais a dizer a um presidente da República do que colocar como aspiração imediata do Paraná a charanga dos empréstimos internacionais e motivo para dissimular sua participação na quebra financeira e relembrar uma fantasiosa perseguição da União, que negava andamento ao pleito porque havia manifesta desobediência à Lei de Responsabilidade Fiscal, tantas as vezes que a Secretaria do Tesouro Nacional a detectou. Aliás, foi por esse motivo que o Paraná importou o secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, que atuava em Salvador, para administrar a saída da crise e calafetar o barco avariado das finanças para deixá-lo ao menos flutuando.

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