LUIZ GERALDO MAZZA
Fugindo da inércia
Nos últimos dias o governador Beto Richa revelou uma energia que até então se mostrava bloqueada por um quadro de inércia: conversou com os sem-terra e ontem com a rapaziada que invadiu escolas em Maringá. Deixou a contemplação, o fluir dos acontecimentos e afinal interveio e com um sentido de envolvimento pessoal e como líder, algo que não fazia há bom tempo.
Tanto no caso dos sem-terra (ontem por sinal houve a exumação daqueles que morreram em confronto com a PM em Quedas do Iguaçu) agiu com sentido superior sem subestimar o lado beligerante e também as responsabilidades do governo em atender decisões judiciais na área conflagrada, uma da quais exigia mobilização de oito mil milicianos, o equivalente a um quarto do efetivo, para assegurar a ordem de despejo como nesse dos estudantes rebelados com a merenda. Aí, deu uma lição no seu colega de São Paulo, Geraldo Alckmin, que invadiu na marra as escolas ocupadas sem autorização judicial específica. Aqui, a Procuradoria Geral do Estado obteve o amparo judicial e, só a partir daí, que se criaram as condições para o diálogo que teve seu ponto alto no encontro de ontem.
Precisamos de ações como as mais recentes de Beto Richa para aquilo que o momento impõe: presença forte no cenário nacional que está no aguardo de medidas como as referidas e que se constituem no anverso daquilo que mais se critica, a atuação bucéfala do massacre.
O simples e singelo fato de a atuação do governo paranaense no caso da merenda escolar se dar sem qualquer conotação corrupta, como se percebe no caso paulista, onde se procura reduzir a responsabilidade de hierarcas políticos do tucanato em desvios nessa área e evitar uma CPI, já evidencia a diferença da natureza do episódio e ainda um estilo de atuação que coloca a Justiça como mediadora essencial da causa.
O torto
O Arlindo Ventura, dono do bar "O torto", que homenageia Garrincha, ativista cultural de primeira grandeza, por cuja causa já se algemou, achou num shopping a importância de dez mil reais e passou a empenhar-se em busca do seu dono. Num país em grande crise moral, que alcança como metástase o centro do poder, conforme se deduz das revelações da Lava Jato, um exemplo como esse ganha forte repercussão e, evidentemente, revela que com essas credenciais no Brasil real não se ajustaria aos nossos partidos como já se comentou nos blogs na evidência de um caso semelhante de alguém que achou dinheiro de outro e se colocou na busca do seu dono. Precisamos de notícias como essas e urgentes a jato. Inevitáveis as ironias sobre o caráter nacional especialmente dos políticos.
Tragédia
Soldados do Exército voltaram a atuar em Paranaguá em ações profiláticas contra a dengue e suas mórbidas consequências. É um reforço importantíssimo, dados os registros chocantes da epidemia que já resultou em 28 dos 55 mortos no Paraná.
Bajulação
No meio do debate sobre a merenda escolar do Paraná, o chefe da Casa Civil, Valdir Rossoni, usa o velho argumento do triunfalismo da praça: o de que a nossa é a melhor do país. Esse tipo de afirmação é vago ou será que existe e não sabemos um ranking de merendas como afinal há o das misses em concursos de beleza ou outorga de alguma instituição. Nossa Assembleia é uma das que têm mais fantasmas do Brasil. Afinal, já tivemos aqui um governo que contava com os melhores gestores de educação e dos portos, ambos irmãos do chefe de plantão. Afinal, como se diz, elogio em boca própria é vitupério.
A compulsão pelos superlativos não é exatamente um critério aceitável. O que é pior é que a oposição pode repicar com uma suposta má qualidade das quentinhas dos presídios só para o mero exercício da contestação.
Aterro sanitário
Depois das revelações de personagens da política brasileira tanto na Lava Jato como nos seus desdobramentos a impressão que se tem é que estamos diante de um aterro sanitário dado o desfile dos nossos heróis, aí expressa a maioria dos nossos representantes no assalto aos cofres públicos. Perderam a condição para fazer aquele gênero teatral da dignidade ofendida, colocados em algo como um apocalipse. Em lugar do imaginário panteão, o aterro que como o jazigo caiado da Bíblia guarda o que conserva.
Folclore
Na questão da merenda, o nosso governador se saiu bem melhor que o seu colega e correligionário de São Paulo, alvo de sérias suspeitas de desvios e que atingem o presidente do Legislativo. Além disso, teve o cuidado de ir à Justiça para recuperar as escolas invadidas com o que levou uma vantagem em relação aos abusos da polícia paulista que tirou os invasores na marra e sem qualquer mandado judicial. Ganhos como esse superam a visão estritamente regional e dão ao governador, ao menos nesse caso, dimensão de estadista.





