Ganhos políticos

O Paraná por várias vezes se valeu de sua expressão política e econômica em momento de virada como essa do impeachment e dá para lembrar da ascensão de Café Filho com o suicídio de Vargas que restabeleceu o compartilhamento ministerial em nosso favor com as pastas da Saúde e Agricultura como agora com o aproveitamento de Ricardo Barros. Não dá para comparar o quadro de 1955 com o de agora: a nomeação de Munhoz da Rocha, desejo pessoal do presidente em favor do compadre, visava possível qualificação para vice-presidente, tal a expressão do paranaense em escala nacional e muito realçada com as celebrações do centenário em 1953 e os memoráveis discursos do estadista.

Mesmo na ditadura militar o Paraná esteve na crista da onda, embora Ney Braga ficasse mais ao lado dos "pombos" com Castelo Branco e Ernesto Geisel. Ney teve a ousadia de enfrentar uma decisão da hierarquia vertical e colocou-se como opção a Costa e Silva, o que irritou, sobremaneira, a linha dura dos "falcões". Numa convenção no Paraná ele obteve mais votos para presidente, do que o ungido, o que era um tanto quixotesco e olhado como provocação.

Os governantes paranaenses tinham obras, programas de médio e longo prazos, e não se valiam apenas do potencial da terra, como se dá nesse momento, em que não temos feitos a registrar e aquela sequência de hidrelétricas, estradas, ferrovia (a Central do Paraná), linhas de transmissão de energia e de telecomunicações e respostas também da União sempre em menor escala do que merecíamos face ao peso da nossa contribuição. Tínhamos moral para falar em discriminação e o fazíamos de forma discreta. Hoje nossa demanda imediata é a tal da liberação dos empréstimos a que não tivemos acesso pelas seguidas desobediências à Lei de Responsabilidade Fiscal, LFR, detectadas pela Secretaria do Tesouro Nacional e que nos conduziram ao caos e à saída de convocar um tzar financeiro como Mauro Ricardo Costa para tentar calafetar o barco furado, o que vem fazendo com imensa dificuldade, apesar do garrote vil do aumento dos tributos e da apropriação do capital até então indisponível da ParanaPrevidência, causa mediata do massacre do Centro Cívico.

Nas transições

Mostramos força, massa crítica, nas transições: a de Tancredo Neves impôs-se a figura de Affonso Camargo Neto que iria ao Ministério dos Transportes de Sarney. Também na passagem de governos militares tínhamos documentos e estudos que nos permitiam focar questões nacionais como quando pleiteamos o Terceiro Polo Petroquímico do país com a Refinaria de Araucária e que perdemos por motivação política para o Rio Grande do Sul já que tecnicamente provamos que a nossa era a melhor opção. Tínhamos quadros estratégicos, intelligentsia, de que hoje não dispomos pela destruição da área de planejamento e dos centros de referência hoje esvaziados como se dá com o Ipardes. Nossa capacidade de intervenção e mediação nos acontecimentos nacionais em foco regional estão reduzidas e isso ficou evidente, ainda no governo Lula-Dilma, com a depreciação de nossa malha rodoferroviária e portuária nos planos nacionais.

E agora o que temos? Um governador que por sua força eleitoral, a da reeleição em primeiro turno, dispersa esse capital e essa energia de uma forma assustadora como se tivéssemos acabado com todos os resíduos da retaguarda técnica e científica e não tivéssemos uma só ideia para o Brasil. O pior é que essa transição vai ser uma das mais sofridas: um país dividido em dois bunkers, um com a presidente afastada e outro com o interino, num confronto que apesar de democrático e forte como espetáculo, dissipa energias. E ao lado de tudo isso as revelações comprometedoras do ex-senador Sérgio Machado que depois de derrubar Romero Jucá e comprometer Renan Calheiros envolve o ex-presidente e ex-senador José Sarney na trama obstinada de minar a Lava Jato.

O feito a celebrar

É evidente que o Paraná se engajou pelo impedimento de Dilma Rousseff, visível no isolamento dos senadores Gleisi Hoffmann e Roberto Requião e na precariedade da energia acumulada para uma possível reação como a tentada no plano internacional em Portugal e que também nada teve de frutífera em prosélitos. De tudo o consolo de sediarmos a República de Curitiba com a força tarefa da Polícia Federal e Procuradoria da República e ainda sob o comando sensato e equilibrado do juiz Sérgio Moro. Em pouco mais de dois anos de operação somente 3,9% das decisões daquele magistrado foram revisadas por tribunais superiores. De 432 pedidos de habeas corpus no STF, STJ e Tribunal Regional da 4ª Região somente 17 foram acatados, o que desmonta a alegação da defesa de que abusos estariam sendo cometidos; de 214 recursos ao TRF4 contra ações da força tarefa e do juiz apenas nove, o que representa 4,2%. Enfim algo, paranaense, para colocar em destaque em meio a tanta mediania e a sinais tão fortes de deserção. Viva, pois, a República de Curitiba.

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