Romanelli, o preceptor
Todo homem do poder sempre teve seu preceptor, normalmente um filósofo. Isso era comum com os sábios e, por vezes, até Sócrates e Platão fizeram o meio de campo. Historicamente se soube que aqui no Paraná o jovem Wilson Martins, último grande crítico de literatura do país, era da equipe de assessores de Manoel Ribas; Juscelino Kubitschek era respaldado por intelectuais mineiros como aqui Ney Braga, Munhoz da Rocha e Paulo Pimentel contaram com o apoio do filósofo Ernani Reichman, do ensaísta Samuel Guimarães da Costa e do político Norton Macedo, uma das derradeiras vocações parlamentares da terra.
Descobriu-se agora quem é, afinal, o de Beto Richa: Luiz Claudio Romanelli, que se postou contra o ato que retirava perto de R$ 400 milhões do repasse dos demais poderes, um raro episódio de coragem de um governo asfixiado pela situação fiscal, alegando que sequer fora consultado. Certamente, não o foi igualmente quando tentou um simulacro de defesa de Dilma, o que obviamente não era do interesse político daquele que lhe confere a liderança.
No que é mais do que inconfessável, como no massacre de 29 de abril, fez o papel de defensor intimorato, mas nessa questão estratégica recuou para ficar bem com os seus pares e não se desgastar com o Ministério Público, o Judiciário e o Tribunal de Contas, transformando-se, a um só tempo, em mediador daqueles interesses feridos provavelmente por inspiração do secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, que faz o possível e o impossível para manter flutuando o barco que calafetou e que o governo tinha avariado. A oposição padece por uma questão aritmética: por falta de dois votos não consegue emplacar a CPI da roubalheira dos fiscais fazendários, todavia ela não consegue ser tão deletéria para o governo como a sua liderança que tenta afundar uma das poucas iniciativas corajosas e com sentido de austeridade.
Parece coisa de valente, mas tem todo o jeito de ambivalente, a não ser que estejamos diante de mais uma farsa orquestrada com todos os atores combinando como se dá nas gravações dos guinchos contra a Lava Jato. A escassez de massa cinzenta é notória. Inteligência nesse governo é uma permanente impossibilidade.

Resposta
Diante da repercussão do estupro coletivo, o governo nacional anunciou que pretende criar uma Delegacia da Mulher na Polícia Federal para esse tipo de delito. Já nas revelações do Sérgio Machado em seu papo com Jucá, Renan e Sarney fez-se de impassível até porque está no rolo no processo que pega Dilma e ele também, que não é bom devoto e nem de voto.

Sinais perturbadores
Empresas em crise recessiva e recuperação judicial criam dificuldades extras para os seus demitidos parcelando tais verbas rescisórias em até sessenta vezes, prática não amparada pela legislação. Está aí uma das pretensões do empresariado em maioria naquela tese de que acordos intersindicais sejam mais persistentes que dispositivos da CLT, questão confessional colocada no bojo da nova ordem de Michel Temer. Obviamente que tal se dá em casos de concordata, mas é um indicador dos valores desequilibrados na relação capital-trabalho.
Para complicar, o governo como opção pelo capital, temos ainda a notícia de que quase três milhões de trabalhadores desempregados ficam sem seguro-desemprego só neste ano. Dá para imaginar o que está por vir.

Machado motosserra
Quando Sérgio Machado na conversa com Renan Calheiros o induz a dizer que Rodrigo Janot é um mau caráter o senador se assanha e repete a sentença como se estivesse numa torcida de um time de futebol. Machado virou motosserra. Ele que aparenta ser socrático não apenas no culto ao diálogo e à busca da "maiêutica", a parturição mental, essa que leva Renan, à beira da catarse psicanalítica, a reproduzir com ênfase a acusação de mau caráter a Janot.

Pichação
Requião chamou de "viadinhos" do PCdoB, quase sempre linha auxiliar de seus governos, aos que picharam a sede do PMDB em Curitiba com ditos contra Temer e o golpe. Como Requião também acha que o impinche é golpe o ataque à sede do partido em que manda é, para dizer o mínimo, uma contradição, acidente comum nos que cultuam a dialética. Apesar do puxão de orelhas, o senador diz que os ama e, portanto, não os discrimina. Dá-lhe, dialética!

Folclore
O professor de Desenho do Ginásio Paranaense, o português Pedro Macedo, às vezes tinha crises no relacionamento com os alunos. Um dia, segundo a lenda, teria se irritado tanto com um deles que o prendeu num armário de lá retirando estátuas de cerâmica de Sócrates, Júlio Cesar, Sófocles e outros menos votados. Aí vendo o colega em má situação, um mais determinado reclamou que o infrator estava com os olhos fora das órbitas ao que o mestre desenhista replicou: "Deixa o gajo morrer em paz!".

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