LUIZ GERALDO MAZZA
Golpe, sim
O golpe foi contra o fluxo da Lava Jato, mas impunha, como primeiro passo, o impeachment de Dilma Rousseff. Como se tratava de uma decisão eminentemente política para alcançar o universo jurídico tudo parecia ajeitadinho e conveniente aos desejos da maioria que não mais suporta a sangria mais séria, a da economia em frangalhos.
Há, portanto, na origem mais profunda do impedimento presidencial uma sórdida manobra no intento de conter as prisões e mandados de busca e apreensão que tiveram anteontem (caso do assessor de Janene, condenado no mensalão, João Claudio Genu, já em cana) e ontem (prisão de sócios de empresa que tinha falsos contratos de fornecimento de tubos ligada às ações de José Dirceu na Petrobras) seu normal desenvolvimento na 30ª etapa da Lava Jato. Assim, enquanto os cães ladram, a caravana segue e agora timbrada em função da gravação de Romero Jucá, o brevíssimo, que com o arreganho da ameaça parece tê-la consolidado.
A escumalha política, muito maior em números do que imaginamos, talvez próxima dos mais de trezentos picaretas a que Lula se referiu, se sente perto do Juízo Final, tal a gama de envolvimento em negociatas que feriram de morte a maior estatal brasileira e como há refluxos na operação judicial ao ponto de retornar a etapas do mensalão, percebe-se que mesmo em estado de catalepsia, morte aparente, são resistentes e um símbolo disso tudo, é Eduardo Cunha, mesmo afastado da presidência da Câmara Federal, que continua operando como foi o deflagrador do impeachment e decidiu a eleição da liderança do governo na Casa.
A prioridade nacional pode ser a recuperação da economia, mas só será republicana com o pleno andamento da Lava Jato, condição essa inegociável a qualquer pretexto.
Ativismo
Também a Justiça Eleitoral entrou em ciclo de ativismo: o vereador Paulo Rink, ex-ponta de lança do Atlético Paranaense e da seleção alemã, perdeu o mandato por haver trocado de partido de forma irregular, o que também se pode dar com outros. Outra decisão do Tribunal Regional Eleitoral, mais pesada, condena o deputado estadual Bernardo Ribas Carli a um ano e oito meses de detenção que podem ser substituídos por prestação de serviços sociais, todavia fica por oito anos com suspensão dos seus direitos políticos. Entre seus crimes, o tradicional do Caixa 2 e também o de falsidade ideológica.
Eleição apática
Com a predominância dos fatos nacionais, não vai ser fácil motivar o eleitorado no pleito municipal a não ser que haja, por exemplo, a acusação de roubo, de propina, para simetria com as questões mais gerais. Isso beneficia o Gustavo Fruet em Curitiba até naquela anedota de que não rouba, mas não faz para contrapor-se ao chavão ademarista do rouba, mas faz. Despertar o público para um novo ciclo de criatividade como o de Lerner seria um tanto quanto incompatível com a situação do caixa. Essa contingência vai pesar em todas as cidades do Paraná a não ser naquelas em que a urgência de soluções de acessibilidade e segurança (o que também se dá na capital) transbordem as cautelas mínimas.
Nacionalizar eleições locais carece de sentido, mas mostrar carências da aldeia em meio à grita nacional não será nada fácil.
O vice
Há uma proposta para tirar a remuneração do vice-prefeito, o que é de uma inocuidade a toda prova. O vice é uma instituição nacional, um regra três clássico e que pode até ser ligado a uma atividade específica. No campo nacional e estadual, é imposição geopolítica, arranjo para áreas de cobertura. No Paraná, por exemplo, é comum a chapa de um metropolitano com um vice de Londrina, de Cascavel ou Maringá. Ou vice versa como se deu com José Richa-João Elísio. Ou a de Alvaro Dias (interior)/ Ari Queiroz (capital). No município também há o amálgama centro-periferia e outras formas de aliança.
Folclore
Aí, o advogado saiu-se com essa: por que não se aplica, por economia processual, a qualquer outro procedimento, a impugnação da chapa original Dilma-Temer, já devidamente instruída? Para sair do sufoco, há necessidade de outro como no princípio da homeopatia "similia, similibus curantur".





