LUIZ GERALDO MAZZA
MST não manda
Segundo o governador Beto Richa, o MST não está com essa bola toda e nem manda quanto imagina. Fez a declaração em Cascavel, um pouco mais distante da capital e mais próxima das áreas de conflito para reagir com uma suposta veemência ao pleito dos lavradores para que afastasse o chefe da Casa Civil, Valdir Rossoni, tido como o responsável pela ordem das desocupações quando apenas cumpriu decisão judicial.
Baseou-se nessa negativa para afirmar que o MST aqui não manda, mas, como estamos cansados de saber, deita e rola na gincana do fechamento de rodovias com a liberação das praças de pedágio, um pula-catracas (aliás um dos que o praticou foi seu líder Luiz Claudio Romanelli, quando desempenhava igual papel para Requião) tolerado, aliás, nacionalmente como se a praxe, isso é sua aplicação costumeira, consuetudinária, como em tudo o mais, fosse uma espécie de direito adquirido e, portanto, incontestável, quase sagrado, ainda que atentando contra o direito de ir e ver de pessoas e organizações e pondo em risco a segurança nacional no bloqueio viário.
Ora, é mais fácil o governador enfrentar, de fato, com suas forças policiais, o MST do que afastar o companheiro de tantas lealdades como a da entrega daqueles cheques gigantes, mais virtuais do que virtuosos, de transferências de recursos do Legislativo ao Executivo e dos embates com a APP Sindicato sem falar na cobertura extrema a suas posições políticas. Para mostrar-se moderno, o governador se dispõe a ouvir o MST em audiência na semana entrante, mas na pauta não consta o afastamento de Rossoni, rechaçado por Beto.
Um dos pontos conflagrados do mapa, em cima das extensas disputas da Araupel, é o de Rio Bonito do Iguaçu que anos passados, governo Requião, foi palco do massacre de três PMs, que serviam na P-2 e estavam descaracterizados, por trabalhadores sem-terra, num verdadeiro linchamento, respondido com a execração e morte do líder Teixeirinha por parte da milícia estadual, fato afinal denunciado e punido pela área de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). A delicadeza das questões aí comportadas é de tal ordem que não há espaço para qualquer tipo de bravata, bastando lembrar que uma das desocupações decididas pela Justiça exigiria a utilização de oito mil milicianos, equivalentes a 40% do total das tropas disponíveis e uma logística complexa e de alto custo. Ademais, há assentamentos ao longo da área que poderiam ser mobilizados pelos sem-terra e estaríamos diante de um quadro focal, de quase guerrilha, mesmo que a brigada campesina aja desarmada ou atue apenas com foices e equipamentos de trabalho rural.
Um pouco de memória histórica ajuda a refletir: os PMs sacrificados, segundo denúncias da época, tentavam recuperar máquinas agrícolas de um fazendeiro, não como serviço reservado, porém na prática de um "bico", pecado venial na origem da tragédia.
A loucura imperceptível
De cada cinco jovens no Brasil, há quatro desempregados. Quem sabe dê para captar numa estatística desse porte o risco que enfrentamos com as dimensões, cada vez mais ciclópicas, da crise recessiva que marcha em queda livre para a depressão, apesar da sinalizações de virada de expectativas pelo governo interino (ou seria uterino). Isso pode explicar o festim alegre dos pula-catracas, mas em outros países é uma das raízes da persuasão para o terrorismo que nada tem de juvenil do Exército Islâmico.
Liminares
No ciclo de permissividade que vivemos em que há greves contra decisões judiciais, como se deu com a derradeira do Hospital de Clínicas e outras no disparo contra infrações de traço disciplinar de motoristas e cobradores transformadas em multas e cobradas, uma decisão liminar da primeira instância da Justiça trabalhista entendeu que o pagamento de salários de urbanitários no dia 25 é sagrado como o respeito aos domingos e feriados de guarda. Todas as formas de contenção foram rompidas. Daí não se saber quais os limites da liberdade e a que ponto se restringiu o espaço da autoridade e a transformação de praxes em direito adquirido é uma das mais comuns consequências.
Direitos humanos
O Brasil já foi condenado pelo setor de Direitos Humanos da OEA por várias vezes: duas delas aqui no Paraná em conflito com sem-terra, uma lá em Campo Bonito do Iguaçu com três PMs e o líder Teixeirinha e uma na entrada de Curitiba em que erigiram um monumento de Oscar Niemeyer ao lavrador morto, o primeiro no governo Requião, o segundo no de Lerner.
Folclore
Enquanto se estreita o cronograma de afirmação do governo provisório na conquista de apoio popular, aumenta a frequência de manifestações contra o impeachment e na base do "Fora, Temer". Hoje haverá às 15 horas, na Boca Maldita, manifesto contra Temer e permanecem os acampamentos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), fulminando o impiche e a absorção do Ministério da Cultura, e aquele, o mais persistente, pró Sérgio Moro em frente à sede da Justiça Federal. O carnaval cívico ainda não deu estresse.





