Semeador de dúvidas
Políticos sempre são tidos e havidos como semeadores de esperanças, mas os mais cartesianos fazem o contrário: disseminam dúvidas. Em entrevista, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, afirma que o atendimento universal pelo SUS é uma falácia, coisa que todo o mundo sabe, mormente os que ficam na sala de espera de hospitais e unidades de pronto-atendimento e morrem. Já havia sido lógico e correto quando como relator do orçamento quis desmistificar o Bolsa Família, cortando-lhe bilhões de assistência, no que obviamente foi contestado porque mexia com algo sagrado e beatificado.
Que o sistema não tem como atender às demandas é óbvio, mas falar num também impossível equilíbrio entre o que o Estado possa oferecer e o assistido receber é avançar o sinal igual ao seu colega de Ministério, o da Justiça, com o aceno de que o governo Temer não respeitaria nomear o primeiro da lista para procurador-geral da República. Também algumas obviedades foram ditas sobre planos de saúde e a inconveniência de submetê-los à judicialização, o que é a derradeira saída do usuário no deficiente e quebrado sistema contra o qual a Agência Nacional de Saúde não sabe o que fazer, tantas as resistências ao atendimento do segurado. Se a área não fosse eivada de chunchos, inclusive acobertados com assassinatos, como os sanguessugas, ainda dava para colocar um pouco de racionalidade na discussão, isso sem falar naquela operação que André Vargas montava com um laboratório nas barbas do governo e justamente nesse Ministério.
Se as condições são assim tão severas, restaria ao ministro já que não tem esperanças a partilhar falar como os comandados das falanges de Cesar declamando "Ave Cesar, morituri salutant". Ave, Cesar, os que vão morrer te saúdam.

CPI das estatais
Se fossemos uma verdadeira democracia, já teríamos emplacado as CPIs das estatais, das Ongs, enfim de todo o aparato blindado. Sai greve na Sanepar e não se cogita de saber qual o padrão salarial da sua alta hierarquia que impede afinal de melhor remunerar os de baixo. Uma empresa, que está longe de ser um padrão, como a Cohapar, estaria com marajás que percebem além do teto constitucional. Fôssemos uma democracia e a Assembleia investigaria isso como uma rotina já que os portais de transparência não funcionam e a maioria, sempre sob domínio do Executivo, rejeita até uma questão primária como a da investigação do assalto dos fiscais da Receita Estadual sob o fundamento de que o Gaeco está em operação em cima do assunto.

Uber e ubre
Há o Uber, inovação tecnológica que São Paulo tenta regular, e o ubre, a teta enfim das áreas sob concessão. 17 vereadores da capital assinam um projeto que regula o Uber, o que renderá nova romaria de taxistas na Câmara. Mas o ubre, o monopólio da Urbs, esse pode fazer o que bem entende e tascou R$ 2 milhões de multas em motoristas e cobradores entre os anos de 2011 e que teriam sido perdoados pelo ex-prefeito Luciano Ducci, conforme os punidos que ameaçam nova greve, a velha chantagem que funciona para o governo das vias calmas e que toma chá de camomila.

Corporativismo
A resistência corporativa é o desforço das associações de policiais militares e bombeiros em defesa de alguns colegas acusados na chacina de Londrina. Por isso, as instituições precisam ser fortes já que o próprio Judiciário se viu obrigado a transferir ao Conselho Nacional de Justiça atribuições que eram deferidas às corregedorias em regra manipuláveis. Ao protesto legítimo, urge que outro lado, o da polícia judiciária e Ministério Público, evidencie claramente por que fez as prisões. O que não pode é aceitarmos como normal que tanto a Polícia Militar como o seu braço judicial, o da auditoria juntamente com o Ministério Publico, tenham postulado pelo arquivamento dos fatos ligados ao massacre de 29 de abril do ano passado, juridicamente uma barbárie.

Permissão
Lei recente sancionada por Beto Richa, rompendo a tradição que impedia construções em alvenaria na Ilha do Mel, certamente com beneplácito do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), vai ser questionada pela Defensoria Pública bem como seu Plano Diretor e ainda a pretensão de terceirizar a gestão dos parques estaduais. De repente, esse pessoal volta os olhos para o litoral norte e "moderniza" o Superagui que hoje só admite casa de caiçara e o turista que for para lá tem que se habituar a regramentos ecológicos e descobrir a graça da simplicidade e desfrutar a delícia de peixe e farinha e pirão do mesmo.

Folclore
A lei que permite casa de alvenaria na Ilha do Mel é obra do verdíssimo Rasca Rodrigues, uma das vítimas dos mastins oficiais no massacre de 29 de abril juntamente com o cinegrafista Jesus que, ao contrário daquele que lhe inspirou o nome, não perdoa seus agressores.

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