O salto ministerial

Nem todo o ministro vale-se dessa catapulta para ambições maiores. Tirando os casos de Munhoz da Rocha e do seu cunhado Ney Braga que ascenderam aos ministérios tanto da Agricultura como da Educação para sustentar uma possível candidatura pelo menos de vice-presidente e o mais recente da senadora Gleisi Hoffmann na Casa Civil sinalizam algo de expressivo. Os demais – aqueles que estiveram na Fazenda como Karlos Rischbieter, até hoje o posto mais relevante conquistado, para missão estratégica no regime militar - não tinham qualquer tônus especial para o comando político. Mesmo o próprio Ivo Arzua, levado à pasta da Agricultura, que já havia sido prefeito de Curitiba, não tinha, ainda que estimulado, qualquer pretensão ao governo estadual até porque trombaria com Ney ou Paulo Pimentel, donos do maior quinhão do pedaço.

Com a indicação de Ricardo Barros, expressão do mais puro pragmatismo na evidência de que era o visado para a pasta da Saúde simultaneamente por Dilma e agora por Temer, não temos a presença de um triunvirato como de Lula em diante com Gleisi, Paulo Bernardo e Gilberto Carvalho, mas seguramente expressa no senso de coordenação como poucos e um tanto quanto resistente a cortejamentos populistas como o demonstrou, na condição de relator do orçamento, ao pretender cortar bilhões do Bolsa Família e com sólida argumentação, talvez esse lampejo de austeridade o credenciando para um ciclo de remédios amargos. Se Ricardo em sua passagem na Saúde fizer pelo Paraná como conjunto o que tem realizado por seu bunker em Maringá estaremos para lá de bem servidos.

Riscos prováveis

Há riscos como se deu com antecessores como Aramis Atayde e Munhoz da Rocha que caíram com o impedimento de Carlos Luz, presidente da Câmara Federal, para assumir a presidência em 1955 e as tropelias injustas assacadas contra Alceni Guerra na gestão Collor por causa da compra de bicicletas (meio alternativo adequado para endemias ou epidemias como essa atual da dengue). A despeito de todos os sinais de estabilidade, registrados na posse de Michel Temer, o quadro, mantido o fluxo da Lava Jato, não garante nada a ninguém e pelo contrário submete o calendário a novas fricções, inclusive as decorrentes da delação premiada de Marcelo Odebrecht que podem aprofundar as lesões ao erário e a comprometer chefias reais das operações inclusive abarcando as internacionais.

A circunstância de haver denunciados da Lava Jato, em bom número, a partir do mais relevante deles, Romero Jucá, do Planejamento, leva à presunção óbvia de que se houver busca do tal clima de concórdia e restauração nacional, será inevitável o choque, mais um desafio ao sistema. Declarações de que não se mexerá no fluxo judicial visam aquietar a opinião pública que inspiradamente percebe que o impacto das revelações supera a própria medida extrema do impedimento presidencial, tal a gama e capilaridade das revelações sobre a corrupção do país que influiu poderosamente na decisão política, mas que submete tudo o mais a seus desígnios. Até o impeachment seria negociável, a Lava Jato não, esse o ponto de vista radical dos que colocam sua atuação acima da conveniência de acomodação para o pacto político. Aliás não haverá espanto que alguém, apesar da fauna de envolvidos nas investigações, tente referir-se ao Pacto de Moncloa, aquele que abriu a Espanha para a atual modernidade e busque aproximá-lo das intenções pacificadoras referidas no discurso de posse de Michel Temer. Da mesma forma que Moncloa não assegurou, no decorrer do tempo, que se vacinasse a Espanha contra a crise atual, com a dificuldade de montar um governo estável, também a atmosfera de triunfalismo, ora presente com a mudança presidencial, se dá em terreno minado menos pelos que saíram do que pelas contradições dos que estão entrando.

União nacional

Na história brasileira quase sempre os apelos de união nacional ou de salvacionismo deram, gloriosamente, com os burros n´água. Há por exemplo mais expectativa do capital do que do trabalho na conjuntura atual até porque já se enunciou que haverá mudanças no contexto trabalhista (mais difícil de remover que pedra de prefeitura) e não consta que haja muitos interlocutores da área, apesar da presença do Paulinho da Força entre os maiores combatentes do impeachment. Até agora a melhor experiência de mudança com um vice foi a de Itamar Franco que criou as condições para o Plano Real com Fernando Henrique Cardoso na Fazenda e o consolidou com sua posterior eleição presidencial. E sem o triunfalismo captado nas linhas e entrelinhas das celebrações da semana.

Folclore

Quando Ney Braga, segunda gestão, assumiu o governo junto com o vice José Hosken de Novaes perguntaram ao londrinense qual seria seu posicionamento: "recolher-me à minha insignificância" e quando assumiu o Palácio Iguaçu dispensava carros oficiais e cansei de vê-lo a carregar as compras do supermercado às costas como um Sísifo discreto e humilde.

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