LUIZ GERALDO MAZZA
Reversão não impossível
Se o governo Temer não sinalizar claramente o que pretende entrará necessariamente, até por causa da euforia produzida, em acelerado desgaste e aquilo que aparenta impossível, a hipótese da reversão, se tornaria viável. Diz-se que quem tem pressa come cru, mas devagar, nas condições psicossociais do Brasil de hoje, não se vai longe. Fica também nítido que manifestações adversas, à medida que os fatos não acontecem, irão se multiplicar, isso sem falar na resistência daqueles que perderão seus cargos em comissão, cujas legiões são de milhares por esse Brasil afora. A tendência daqui para a frente é que os fatos favoreçam mais a impinchada do que os impinchadores pela circunstância de ser difícil atender às demandas do imaginário da população e de estratos específicos, isso sem falar nas suas necessidades mais imediatas.
Claro que os maiores entusiasmos vem do empresariado (que aliás foi sócio de Lula e Dilma nas desonerações das folhas, no IPI baixo e nos juros a perder de vista no BNDES e mais ainda do consumismo larvar centrado na loucura do crédito consignado), portanto, o capital, em desfavor do trabalho com sinais de restrições à cultura dominante com o que recria a "velha senhora" da alegoria da luta de classes tão ao gosto dos engajados e há muito posta fora das reflexões mais densas.
Se o governo provisório não for capaz de criar fatos políticos e impactos administrativos com a velocidade exigida pelos acontecimentos (a da Lava Jato, por exemplo, por mera analogia), entra em estresse, fadiga do material e transfere energia para a hoje humilhada oposição. Há coisas que podem ser ambivalentes como a prisão de um líder nacional ou até mesmo o seu enquadramento definitivo de natureza criminal, servindo de motivação para os dois lados e ainda o processamento de gente dos quadros oficiais já indiciados.
Tudo recomenda austeridade, todavia, não temos vocação para praticá-la e tudo o que vier nessa direção, como mexer no que está consolidado na Previdência, isso sem falar que teremos que ouvir asnices como o de que essas práticas são neoliberais ou reacionárias ou ainda, mais ao gosto da turba, da extrema direita e, portanto, demoníacas.
Felizmente, para nossa alienação, como dizíamos nos anos 50 e 60, temos a dissipação do futebol, do UFC que descarrega nossas pulsões mais violentas e as novelas da tevê.
Murmúrios
Ocupação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) apoiada em produtores culturais e resistentes à fusão da pasta da Cultura à da Educação, mas firmando posição hostil ao impeachment é um sinal de que escaramuças serão inevitáveis tanto que amanhã teremos às 16h na Santos Andrade o "Fora Temer" e, às 15h, na Boca Maldita apoio à Lava Jato e ao Sérgio Moro. Ainda não foram detectadas resistências mais fortes o que demonstra que a tonalidade "revolucionária", que subsistia na esquerda petista, apesar das alianças com o capital e as classes dominantes, é apenas residual.
Greve
Greves podem se tornar constantes, o que também não ajudam o clima desejado pelos que ganharam o governo. Aqui mesmo, resolvida a do Hospital de Clínicas com o diálogo entre o Sinditest e a Fundação da Universidade Federal, já se anuncia a retomada, para terça-feira, aquela da Sanepar que havia sido interrompida.
UFC na moda
O fato de a lotação hoteleira em Curitiba ter chegado a 80% (bem superior à obtida com aqueles jogos da Copa do Mundo) em função do UFC na Arena da Baixada, sob os olhares do mundo, obrigou os ramos da hospitalidade de um modo geral (bares, pubs, restaurantes) se equiparem com telões para a retransmissão das lutas, apoiada também, é claro, em medidas de segurança para evitar que a clientela resolva reproduzir o octógono no recinto. Parece que a excitação é maior aí do que a gerada pelo cenário político.
Delação
A possibilidade de o Gaeco rever a delação premiada de Luiz Antonio de Souza, por ter mesmo na prisão achacado vítimas, não significa a anulação do ponto-chave de suas confissões quanto à transferência de parte da grana roubada de contribuintes ter sido supostamente utilizada na campanha de reeleição de Beto Richa, fato hoje sob exame do Superior Tribunal de Justiça.
Rombo
Menos do que falou sobre o que fará no Ministério da Saúde, o informe de Ricardo Barros de que o rombo fiscal da União é de R$ 96 bilhões foi destaque do noticiário, obstáculo sério para reequilibrar o país. Como relator do orçamento, pode sentir a dimensão do drama.
Folclore
Se Ricardo Barros fizer pelo Paraná e o Brasil o que faz por sua família (esposa prestes a assumir o governo e sair candidata à reeleição, a filha Maria Vitória candidata à prefeitura da capital e o irmão Sílvio à de Maringá) e por sua cidade, estará tudo de bom tamanho.





