LUIZ GERALDO MAZZA
A timidez comprovada
Já está assegurada a designação de Ricardo Barros para a pasta da Saúde do governo Temer. É o quarto nome da terra para a função: o primeiro foi Aramis Atayde, indicado por seu cunhado Munhoz da Rocha e acolhido pelo compadre de Bento, o presidente João Café Filho, lá pelos idos de 1955 e depois tivemos mais dois ligados ao Sudoeste Alceni Guerra e o lapeano Borges da Silveira. Emplacamos também para a Educação, na abertura de 1964, Flavio Suplicy de Lacerda, e depois Ney Braga e Euro Brandão.
Ora, apesar de toda essa representatividade, esse grupo de paranaenses não soube ou não pôde encaminhar uma questão: o Hospital de Clínicas é um dos poucos hospitais-escola que não é sustentado nos seus quadros por verbas federais e causa mais remota das suas mais notórias dificuldades operacionais como a da mais recente greve ali deflagrada. O problema diz respeito justamente aos dois ministérios, encarado pela Fundação e agora, ainda em crise, pelo convênio com a associação hospitalar federal.
Um ministro da Educação gaúcho, Tarso Dutra, numa canetada, federalizou as universidades estaduais do Rio Grande do Sul. Os nossos, em que pese o prestígio de Ney Braga, nada obtiveram tanto nesse caso como no da redução das aflições do Hospital de Clínicas. E isso obriga a reflexão: contenção exagerada com a visão nacional dos problemas em prejuízo das demandas paroquiais ou constatação do arquétipo tão referido da timidez e introversão.
É verdade que seria provinciano demais, em certas contingências, dar relevância ao micro em relação ao macro, mas Affonso Camargo, como titular dos Transportes, transformou o polo rodoferroviário de Ponta Grossa beneficiário de inúmeros feitos de natureza estratégica e logística que lhe asseguravam, de forma sistêmica, bônus eleitorais com o que demonstrou que uma reivindicação com aparência localista tem sentido nacional, ainda mais levando em conta o entroncamento com rodovias que seguiam ao norte como também os trilhos da Central do Paraná rumo a Apucarana.
Mas também é acanhado demais o governador atual, Beto Richa, que ao referir-se ao novo governo o saúda como capaz de rapidamente liberar uma antiga ideia fixa nos nossos pleitos de empréstimos R$ 1,76 bilhão, que foram negados na gestão Dilma por orientação técnica da Secretaria do Tesouro Nacional pela desobediência à Lei de Responsabilidade Fiscal, explícita na quebra financeira do Paraná que exigiu para resolvê-la a vinda de Mauro Ricardo Costa que toca uma secretaria em que seus quadros da hierarquia são acusados de grossa roubalheira e com ampla cobertura política, como se depreende da coletiva do Gaeco ontem em Londrina no anúncio de novas prisões e a possível anulação da delação premiada de Luiz Antonio de Souza por ter, mesmo na cadeia, tentado achacar denunciados.
Uma perda
Com a ida de Ricardo Barros para o ministério, perdemos uma peça importante em termos de coordenação política. E esse afastamento pode afetar tanto a campanha da esposa, Cida Borgheti, que vai assumir o governo com o licenciamento de Beto Richa e depois se candidata à reeleição, como a da filha, Maria Vitória, que disputa a prefeitura da capital. Prejuízo também para o irmão Sílvio à Prefeitura de Maringá. Uma oligarquia, enfim, luminosa.
Na Justiça
A oposição, inconformada com a legislação casuística na Cohapar, se dispõe a ir à Justiça para contestá-la. Por sinal, que o legislador no caso se rebelou com decisão trabalhista que afinal fulminava a irregularidade nos quadros da repartição. Esse é o caminho institucional adequado para correções que no front político se revelam inviáveis. Provocar a Justiça é enfrentar a couraça de certas decisões e colocar o sistema constitucional de freios e contrapesos em funcionamento. É o caminho correto para os atos de oposição.
Folclore
A novela do "impinche" tem novos capítulos: a biografia do ministério é devassada nas redes sociais e um dos enfocados ontem foi Leonardo Picciani
(que era a favor de Dilma e depois ficou contra) e assim será com o detalhamento dos malfeitos por outros integrantes da equipe e sob investigação da Lava Jato.
Se essa mantiver seu fluxo e é claro que se tentará evitar que funcione, ainda que prometida em solenidades discurseiras -, a crise persistirá e não haverá como fazer a anestesia, mais do que anistia, desejada. Uma sequência de traumas é prevista.





