LUIZ GERALDO MAZZA
Um processo turvo
Pode-se dizer tudo do impeachment, menos que tenha sido equilibrado e justo, tantas as manobras maliciosas e casuísticas que o marcaram e aquilo que pareceu o mais caricatural na anulação proclamada pelo presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão, era a expressão autêntica, em que pese o tom circense, de um processo marcado pela turbidez. Mais formal do que o havido com Fernando Collor, mais tarde absolvido pelo STF dos crimes lhe atribuídos, e até por isso impondo um mínimo de reflexão, dele não se sai bem mesmo o Poder Judiciário até aqui a área menos afetada e novamente colocada em questão com as novas demandas da Advocacia Geral da União.
Visivelmente, embora com ajuste em fundamentação jurídica, um impedimento é, antes de tudo, um ato essencialmente político que pode até mesmo ser fundamentado na crise que engolfa o país, hoje uma nau à deriva rumo ao desconhecido. Já tivemos cassação de mandato de um senador, Barreto Pinto, por ter se exposto publicamente de cueca, e vimos na questão do Delcídio do Amaral, resolvida à unanimidade, em que pese a severidade do caso de quebra de decoro por tentar interferir na Lava Jato, um bom percentual de retaliação pela quantidade de exemplares da fauna referidos na sua delação premiada.
Essa virada de uma maioria hegemônica, que apoiava o governo e o compunha nas pastas ministeriais, e agora, assumindo ares de ira santa, muda drasticamente de opinião pode-se explicar em tudo menos em fundamentos éticos numa consagração do herói sem caráter de Mario de Andrade, o Macunaíma. Mas é desse amálgama que o Brasil é feito, como se nota na retórica justificativa e no oportunismo das intervenções. O fato é que proclamamos algo que não temos, a república, minada pelo patrimonialismo, herança da colonização e que persiste em nosso DNA.
Se é melancólica a resistência do lulopetismo, que como todo projeto imperial pretendia manter-se por mais uma década, é devastadoramente falsa a euforia dos vencedores que recuperam, uma vez mais, um dos arquétipos mais detestáveis do Brasil, o do homem providencial e salvador.
Cargas
No passado, entre as críticas mais caricaturais do porto de Paranaguá, estava aquela que atribuía à fauna de pombos o sumiço de toneladas de cargas que transformariam as aves em tamanhos de lutadores de sumô. O fato é que as cargas sumiam, mesmo a cota referida aos resíduos normais, e as explicações ridículas persistiam. Pois agora uma operação policial que rendeu a prisão de pelo menos sete pessoas e a execução de 17 mandados de busca e apreensão flagrou ao menos uma parte de desvios de cargas.
Paranaguá é vulnerável como ficou demonstrado em roubos até de automóveis retirados do interior de contêineres e suas deficiências operacionais ficarão mais visíveis com as novas unidades portuárias, ao cuidado da iniciativa privada, dentre as quais a de Pontal do Sul, rompido o rigor do bloqueio poligonal. A resistência à modernidade e à competição também se funda no vício nacional do patrimonialismo.
O porto como um feudo deu sua mais forte demonstração com a guerra contra os produtos transgênicos isso sem falar em outras sequelas como a da indústria trabalhista de milhões, fundadas em razões localistas.
Resistência
Alguns vereadores de Curitiba de oposição, dentre eles Jorge Bernardi e o professor Galdino, prometem ir à Justiça contra a cessão dos R$ 50 milhões à prefeitura sob o fundamento de que isso irrigará a campanha de vereadores situacionistas. Daqui para a frente, até porque a campanha será curtíssima, haverá paranoia eleitoral. Dá para imaginar o que aconteceria se a gestão de Fruet, como se deu com a do seu antecessor, fosse de obras.
Mobilidade
Ontem o BRDE liberou R$ 37 milhões para obras de mobilidade urbana em cinco municípios. Espera-se que elas não repitam aquilo que se deu com as da Copa do Mundo na capital e mostradas pelo Tribunal de Contas, por desídia e ineficiência, muitas inconclusas, com aumento de mais de 600% do seu custo original. Mobilidade maior é a do Atlético que deseja que o governo e a prefeitura da capital rachem os custos em um terço cada. Fruet reagiu e foi à Justiça contra o beneficiário da Arena da Baixada. Já o governo estadual claudica porque o xerife fiscal está de olho.
Folclore
A maldade campeia e, ao mesmo tempo, em que o vice Michel Temer expressa euforia com a hipótese de virar presidente, jorram as piadas em torno do drácula e do gótico caricaturando o futuro dono da bola e que entre os seus programas estarão o "Minha Casa mal assombrada, Minha Vida" e o "Bolsa Família Adams".





