LUIZ GERALDO MAZZA
Semeando a anomia
Era só o que faltava: o presidente regra três da Câmara Federal, Waldir Maranhão, também alvo da Lava Jato, acatou o pedido de nulidade do processo de impeachment, entre outras coisas, porque em tais circunstâncias não se admite "fechamento de questão" além de outras infringências de natureza técnica. Bastou entrar alguém fora do esquemão de Eduardo Cunha e já se criou um bode desse tamanho.
A reação estuporada dos parlamentares foi imediata porque todos se achavam embalados na realidade nova, representada por Michel Temer, também tisnado pela Lava Jato, e no clima falacioso da "restauração nacional", como se ela fosse possível com essa fauna, na qual poucos, pouquíssimos, escapam. O senador Alvaro Dias, por exemplo, achou a atitude de Maranhão, estapafúrdia. Todavia, se há algo que não se poder dizer do processo político é que ele seja isento, limpo e sem anomalias, haja vista o próprio impedimento de Eduardo Cunha na perspectiva jurídica que agora tantos querem preservar.
O Judiciário não pode intervir numa questão "interna corporis" da Câmara Baixa e se o fizer estará reincidindo, específica e genericamente, numa intromissão indevida: como se nota o bloqueio a Cunha, ainda que exercido de uma forma imperial porque unânime, quase na forma de um édito, ainda que necessário, discutível e temerário para dizer o mínimo. Com o cartão vermelho ao ex-comandante da Casa, alastra-se o quadro de anomia, aliás pulsante, há muito tempo, no cenário brasileiro pela circunstância que desde Temer, passando por Renan Calheiros, mais ainda pelo Waldir Maranhão, todos como a própria presidente sujeitos, a qualquer momento, a uma sanção que já vem tarde . Os poderes civis estão enrascados e o Judiciário também começa a entrar na areia movediça. Aí, se instalará a anomia absoluta como aquela que se capta no fim de uma guerra com os atos de saque facilitados pelo quadro que antecede a ocupação militar. Anomia é a ausência de referenciais institucionais para regular a vida em sociedade.
Resistência
Nas ruas e nas estradas, no campo e nas cidades, até agora não se viu aquilo que parecia ser da constituição orgânica do lulopetismo: uma imaginária capacidade de bloqueio que viria das centrais sindicais (há a prometida greve dos petroleiros para hoje) e movimentos sociais, MST à frente, mas também o grupo dos sem-teto. Há rabulices ainda possíveis para frear a marcha inexorável do impeachment que o Senado quer tocar de qualquer jeito, como Renan Calheiros deu a entender ontem, sem dar a mínima importância à aceitação pelo presidente da Câmara em exercício do recurso da Advocacia Geral da União.
A paranoia é a data 13 de maio, número da legenda petista e dos anos no poder. Há, além disso, a rememoração da abolição da escravatura, enfim um indicador aziago e, ainda por cima, numa sexta-feira com todos os seus significados cabalísticos.
Pula catraca
3.830 passageiros diariamente, valendo-se do ritual do "pula catraca", viajam sem pagar no sistema de transporte coletivo em Curitiba. Não se trata apenas de uma descapitalização das empresas e do sistema, mas de ameaça de aumento de tarifa a todo instante, razão pela qual vereadores desejam sanções mais fortes porque está evidenciada a impotência da Guarda Municipal para fazer uma fiscalização com um mínimo de eficiência. No ano passado as empresas afirmavam que em seus cálculos mostravam que a burla era de 3.252 por dia com um aumento, portanto, de 18%. O que se pretende é multar, de uma forma visivelmente educativa, os transgressores. E isso se dá no momento em que o delirante movimento do passe livre entra em ação novamente.
Londrina atenta
Qualquer queda de Londrina em indicadores econômicos e sociais e o fato mexe com toda a comunidade como na manchete de ontem que mostrou redução de potencialidade de consumo ao passar da 33ª para a 35ª colocação no ranking nacional. Essa sensibilidade se exaltou quando perdeu de Joinville a condição de terceira cidade do Sul brasileiro, em termos demográficos, o que levou a sua "inteligentzia" a refletir sobre causas e efeitos e meios de garantir no futuro o seu crescimento.
Mais atenta que o governo paranaense que só registra o lado positivo das coisas, como na questão da quarta unidade federativa em renda interna, mas não percebeu, em fevereiro, que o IBGE mostrou que no Sul detínhamos a menor renda per capita: nós com R$ 1.241 e os gaúchos com R$ 1.435 e os catarinenses, levando o ouro, com R$ 1.368. Dá para lembrar aquele descuido do Rubens Ricupero sobre a conveniência de divulgar o lado bom.
Folclore
Depois dessa do presidente interino da Câmara de aceitar recurso contra o impeachment e do presidente do Senado não dar a mínima e seguir o processo percebe-se que o Brasil é a Casa de Mãe Joana e Niemayer profeta em revelar o bicameralismo com um penico pra cima e outro pra baixo, como sugeriu o humorista.





