Semelhante, mas não igual
Só falta agora Eduardo Cunha acusar seu afastamento pelo STF como golpe. Isso reafirma o conceito de que golpe é sempre aquilo que nos prejudica na luta do nós contra eles, mais um dos arcaísmos lulopetistas da moda. Quando o beneficiário do golpe se manifesta ele diz tratar-se de uma restauração democrática ou do ordenamento institucional.
Para os derrotados de 1964, etapa importante da geopolítica da Guerra Fria, a "revolução" com milhões de rezadeiras nas ruas por todo o Brasil, foi golpe. A meia sola de 1961 com a posse de Jango, que as Forças Armadas tentaram impedir, teria sido um contragolpe.
Pois estamos agora como em novembro de 1955 com um quadro parecido: o impedimento, mesmo que provisório, do presidente da Câmara, aquele tempo com o deputado Carlos Luz e ora com o vivaldíssimo Cunha, naquele caso mais urgente porque o supostamente ungido iria assumir porque o presidente Café Filho, que substituíra Getúlio Vargas, tinha sofrido uma crise cardiológica (os adversários diziam que ela era falsa e que visava impedir a posse de JK) e o sucessor natural já recebia cumprimentos como se dá agora, na visível puxação de saco e na idealização de Temer como um Joaquim Nabuco redivivo, com o timbre de salvador e de homem providencial, como é do cacoete sociológico brazuca.
A questão já havia sido objeto de reflexão do ministro Teori Zavaski, que entendia como inaceitável que um deputado, alvo de variadas acusações e mais do que isso investigações, pudesse com esse currículo ser o segundo na linha sucessória. Discute-se a questão da previsão legal, no caso específico inexistente, como fator impeditivo e fator claríssimo de intervenção em outro poder. Por mais transbordamento jurídico que haja, percebe-se que aí como no caso do impeachment de Dilma Rousseff o fator político é preponderante. Basta lembrar que em 1955 os milicos disseram agir em nome (haja caso cabalístico) do Movimento de Retorno aos Poderes Constitucionais Vigentes, um torcicolo jurídico-institucional.
Convenhamos que uma intervenção do Judiciário, como a havida na decisão de ontem do STF, é mais conforme a mecânica institucional do que a de 1955 quando o maior criminalista do Brasil, ministro Nelson Hungria, ao relatar pleito do deputado impedido, fez ironia em dialogar com tanques na rua. Como dizia o filósofo Ernani Reichmann descolore-se a realidade para torná-la jurídica e assim é se vos parece como sugeria o teatro de Pirandello.

Pedágio
Assanharam-se o governo e concessionárias do pedágio com a decisão do Tribunal Federal (alguém ainda lembra da campanha do nosso foro, firme na lei, mas inexistente?) da Quarta Região que derrubou a liminar que proibia a prorrogação dos contratos. Imediatamente o fórum de deputados opostos à medida restabeleceu um programa de mobilizações. Na área privada a figura mais proeminente contra é o presidente da Fiep. Há um estudo em andamento, para fortalecer esse posicionamento, mostrando o gargalo que isso representa em termos de custo Brasil, maior do que a aventura irresponsável de bloquear os produtos transgênicos por Requião e que redundaram em prejuízos de R$ 4 bilhões.

Cicloativismo
Está em moda, aqui e no mundo, em entronizar a bicicleta como solução de mobilidade, o que não impede, como acusa o Detran, nada menos de sete acidentes diários com elas no Paraná.

Dengue
Apesar de suas melhores condições de saneamento do que nas cidades com epidemia, Curitiba registra 456 casos de dengue só este ano, muitos deles, o que é mais grave, autóctones.

Folclore
Não há como comparar os votos de ontem do STF no impedimento de Eduardo Cunha com o dos deputados justificando o sim e o não no impeachment de Dilma Rousseff: ornamentais, sim, como é da cultura do segmento, solidamente fundamentados, é claro que nem sempre aceitáveis para os críticos que fazem a rígida distinção entre legalidade e legitimidade e não aceitam os insondáveis conceitos do metajurídico inevitáveis no alongamento da epistemologia em causa. Vejam ao que a linguagem nos obriga. O importante é que a decisão, além de tudo, era imposta pelas circunstâncias e muito mais higiênica e depuradora do que a do impedimento presidencial.

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