LUIZ GERALDO MAZZA
Objetivo explícito
Entre salvar o Brasil com sua restauração governativa sob o comando de Michel Temer (PMDB-SP), também um investigado, e livrar empreiteiros e políticos da Lava Jato, essa parece a tese prioritária do momento. Afinal, há a angústia dos brasileiros ante a crise e o país à deriva, mas o sofrimento maior é em torno dos parceiros presos, maiores empreiteiros do continente, e de outros que ainda possam seguir o mesmo destino com novas delações que a cada momento cria um clima de terror para os simplesmente citados no processo.
Há a lista de Rodrigo Janot, já conhecida, mas a continuidade dos depoimentos sugere que pode crescer exponencialmente e, é claro que para o tipo de político que temos, essa ordem de preocupação em cortar o embalo das investigações e condenações acaba se transformando em ponto nodal da "paz" verdadeiramente desejada. Isso apareceu na entrevista de FHC em que defende a integração do PSDB ao governo Temer e firma como princípio inegociável o pleno andamento das investigações: qualquer sinalização nessa direção, o tucanato pula fora, se seguir o ponto de vista do ex-presidente. Alerta para o fato de que será inevitável a tentativa para acabar com a Lava Jato, posto que haja também resistência a esse tipo de golpe.
Um dos fundamentos de tudo isso está na blindagem do "herói" do impeachment e que comandou o processo, o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um dos que mais denúncias acumula, e a partir daí, por extensão, "melar" as investigações que também se referem a Dilma e Temer e ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Há quem não se conforme com isso como se viu na lavagem da fachada do STF contra a demora em julgar o presidente da Câmara Federal, apesar de anteontem o ministro Teori Zavascki haver aberto mais dois inquéritos penais contra Cunha.
Essa vigilância é indispensável para evitar que o Brasil se poste perante o mundo em momento de tão grave crise como partícipe de uma opereta regida pela conveniência-conivência do que há de mais baixo e vulgar em rito institucional.
Massacre redivivo
Um coletivo sindical cuida de relembrar o massacre de 29 de abril e montar programação para festejá-lo. Um setor quer ligar a manifestação como de resistência ao impeachment o que politicamente não é consenso especialmente entre professores. O fato é que o governo estadual é pelo impedimento de Dilma e foi o promotor da violência com mais de 200 feridos. Há, no entanto, um grupo cada vez maior entre sindicatos que é contra o aproveitamento da causa e o alinhamento excessivo com o lulopetismo. Efeitos da cisão serão perceptíveis em futuro próximo em possíveis mobilizações.
Mínimo regional
Desde Requião o Paraná paga um dos maiores salários regionais que num momento de recessão como de agora pode se transformar em mais um fator de desemprego. Beto Richa dá continuidade a essa política e mandou mensagem ontem ao Legislativo que o fixa entre níveis de R$ 1.148 a R$ 1.326. Cortesia com chapéu alheio porque o governo festeja, mas quem paga é o já oprimido patrão esganado pelo aperto fiscal.
Violência
Do assalto de joalheria de shopping ao de uma agência do Bradesco no Batel, o primeiro sem vítimas fatais, mas o segundo com uma, um dos assaltantes, morto por um PM de folga que passava pelas imediações, é o retrato de nossa rotina. Sensação de segurança só teremos com mais polícia ostensiva.
Viúvas
Ministério Público está de olho nas concessões de pensões a viúvas de ex-vereadores em Paranaguá (uma delas beneficiária de um suplente que exerceu o mandato por três meses) em número de 21 e cujo montante chega a R$ 614 mil por ano. Empenha-se em anulá-las.
Greve
Prefeitura da capital, quebrada, só pagou a metade do salários da Urbs e Diretran e os dois partiram pra greve. Para compensar, Curitiba lidera nacionalmente o ranking de educação integral para a criançada de zero a cinco anos. Isso é fruetficante, aquilo não.
Folclore
"Diretas já", que foi aspiração brasileira, volta ao cenário: pesquisa Ibope aponta que 62% optam por nova eleição, 25% querem que Dilma permaneça e apenas 8% são favoráveis ao impeachment e a posse de Temer. Com a hipótese de eleição, Lula lideraria com 19%, seguido de Marina com 12% e Aécio com 11%. A pontuação pró Dilma não é desprezível e a distância entre a decisão parlamentar e o sentimento público é muito séria. Não passa de um gráfico de eletrocardiograma a enunciar o enfarte inevitável.





