Sempre os outros
Como Sartre definiu o diabo como os "outros", também podemos afirmar como regra absoluta que as artes do golpe nunca são nossas e sim dos nossos adversários mais implacáveis E temos um belo exemplo de golpe a nosso favor, o de 1955, deflagrado pelos generais Lott e Odílio Diniz e que garantiu o bloqueio à posse do Eduardo Cunha da época, Carlos Luz, então presidente da Câmara Federal e o nome da ordem sucessória com a moléstia de Café Filho, vice que assumira o governo com o suicídio de Vargas.
Como convém a quem dá golpe seus apoiadores se valeram também de um eufemismo e de terrível mau gosto como saída jurídica: "movimento de retorno aos poderes constitucionais vigentes". Lembro que uma medida extrema foi requerida ao STF e o relator, talvez o maior criminalista brasileiro de todos os tempos, Nelson Hungria, teve que tergiversar em torno da preponderância do direito da força sobre a força do direito, velha retórica transformada em cacoete, quando estamos na evidência de opinar sobre o jurídico puro ante o resfolegar dos tanques militares diante dos palácios. No ministério do governo impedido estavam dois da terra: o da Saúde, Aramis Athayde, e o da Agricultura, Munhoz da Rocha. Recorreram também os golpeados a um protesto monumental: a bordo do cruzador Tamandaré da Marinha navegaram em protesto pela baía da Guanabara, algo bem mais elegante do que MST nas estradas, com o presidente deposto, Carlos Luz, no comando e entre os ministros, um líder da extrema-direita, almirante Pena Botto . Canhões do Exército atingiram a embarcação e ela não respondeu reconhecendo a implacabilidade da derrota. Fundamento era de que se armava uma conspirata contra a posse de Juscelino Kubitschek o que era assimilado em função da tradição supostamente golpista da UDN que chegou a desenvolver a tese, ao tempo não vigorante, mas correta, da maioria absoluta.
Para os que derrubaram Jango em 1964 não havia golpe, mas uma revolução, com o que até alguns brazilianistas concordam, na evidência das passeatas das rezadeiras que punham mais gente na rua do que os movimentos de agora em nome da Família com Deus e a Liberdade, apelos anticomunistas adequadíssimos à Guerra Fria que se tornara mais sensível com o feito dos guerrilheiros de Sierra Maestra que ocuparam Cuba.
Circunstâncias históricas tudo justificam: uma derrota eleitoral para a dupla do café com leite, São Paulo-Minas, deu margem ao que se chamou de revolução de 1930 que respondeu a uma suspeita, o que na verdade era uma praxe, a fraude eleitoral, o que até hoje é questionado como se capta nos desdobramentos da Lava Jato e da roubalheira na Petrobras.
A tentativa de impedimento em 1961 de Jango era um golpe, cujas forças capitularam para voltar com mais energia e articulação, três anos depois. Como o demônio, que para Sartre eram os outros, assim também com o golpe, como se vê na pregação do lulopetismo.

Rebelião
Mais uma rebelião, agora na cadeia pública de Campo Largo, ocupou tropas do governo na madrugada. A ida do Departamento Penitenciário, Depen, para a área de segurança não garante a calma fora dos presídios, como se vê.

Queda
Segundo pesquisas da Federação do Comércio, a queda do poder de consumo das famílias em abril chegou a 24%. A recessão, retroalimentada pela política, se mantém vivíssima.

Frente
Articula-se frente partidária nacional mista contra a renovação dos contratos de pedágio que no momento tem o ponto de vista favorável da Justiça Federal, apesar da grita de governos como o do Paraná e de entidades (a Faep, a mais concentrada) e dissidência da Fiep que olha o negócio como ruim para o país e bom apenas para as operadoras.

Simulação
Se João Claudio Derosso não estivesse em queda, haveria a carga sobre ele do Tribunal de Contas? Não é fácil responder porque ele não sofreu qualquer restrição nos 15 anos de comando na presidência da Câmara Municipal e em Curitiba em demandas políticas só era superado pelo governador e isso no império do PSDB. Muitas das 54 ações contra ele e outros vereadores totalizam R$ 35,5 milhões em multas e devoluções só foram deflagradas depois dos desvios nos casos de propaganda que beneficiavam sua esposa e jornais de bairros. Pelo jeito, o cara precisa cair para ser julgado com dureza, como se deu com Leon Perez.

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