LUIZ GERALDO MAZZA
No desespero nada é sutil
Os vencedores da batalha do impeachment gostariam que a presidente Dilma não levasse à ONU as questões domésticas e que a ela só caberia esperar o ultimato do Senado e mostrar-se sobretudo comportada. Recomendação de sutileza e elegância no desespero não é terapia aconselhável. Condenável ou não, a sua referência ao seu julgamento político e classificado como golpe para quem registra seus últimos atos como resistente, essas restrições têm de tudo do que há de típico da burguesia, expressão de classe adequada ao momento.
Há ainda uma esperança, como se depreende das intervenções de José Eduardo Cardozo, advogado- geral da União (que enfrenta outra frescura a dos advogados da União contra suas posições como se mais do que ninguém ele não tivesse dado o melhor respeito institucional à Polícia Federal na condição de hierarca ministerial) apontando o caso concreto de desvio do poder de Eduardo Cunha como indutor e principal operador do impeachment, ainda que lambuzado pelo propinoduto da Petrobras e pela manobra com dinheiro no exterior. Obviamente, contrariando as tradições históricas o plenário senatorial, até por ter menor dimensão, é menos contagiável por expansões fisiológicas como as registradas no circo da condenação. A Câmara Federal sempre foi, a exceção de poucos momentos, a expressão mais forte do sentimento nacional, e vista como um passo adiante face à câmara revisora e mais conservadora, o que aliás é figurado no chinó branco dos pais da pátria ingleses.
O Senado é órgão julgador e isso ficou assentado na interpretação do Supremo Tribunal Federal ao fixar o diagrama do impedimento. Aí, repousam as derradeiras esperanças daqueles que insistem em falar em golpe, recurso que era válido na resistência de Brizola em 1961 pela posse de Jango que levou a questão para a emulação militar e também na de 1964, a que derrubou o regime. Nesses dois episódios ficou claro que golpe é uma palavra, um recurso defensivo, mas sem força para mudar os acontecimentos. Jango também colocou gente na rua, menos porém do que as marchas com Deus e a Família pela Liberdade. O lulopetismo confia nas barricadas e nós aqui teremos ainda a celebração do massacre de 29 de abril que tatuou, de forma indelével, o governo Beto Richa no lance mais fascista da história paranaense. A resistência, por mais bem urdida, não terá a força monolítica da demonstrada por Eduardo Cunha e que por isso, por mais vilão que seja, é o herói inegável do impeachment e por isso é aureolado pelas maiorias. O doutor Silvana levou a melhor.
Na lista
Relevantíssimo o fato de novamente o juiz Sérgio Moro ser listado entre os cem mais influentes do mundo. A "Time" segue orientação de outras publicações e institutos que conferem essa medida a um homem que está mudando a visão do brasileiro sobre o Judiciário e numa escala bem superior à obtida pelo ministro Joaquim Barbosa no mensalão. Está armado um esquema na base da união nacional para que haja alguma forma de breque nas apurações da Lava Jato. Enquanto aos adversários do impeachment resta a resistência nas ruas para que chegue ao Senado, aos interessados no fim da impunidade a continuidade dos feitos da Lava Jato como a denúncia de Mônica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, que o ministro Mantega intermediou caixa dois nas campanhas petistas. Há aí uma vacina para impedir o "deixa disso" que se pretende em nome da harmonia nacional e que visa limpar a barra da ladroagem porque as prisões e sentenças ameaçariam o processo de desenvolvimento. Até aqui a Lava Jato tem mais importância restauradora dos que as que supostamente se obteria com o impedimento de Dilma.
Público-privado
Dá-se muita ênfase no país às parcerias público-privadas que representaria um avanço em termos de investimento. A Procuradoria da República alerta que esse tipo de experiência em Foz do Iguaçu, especialmente na área de saúde, deu margem a uma sistêmica deturpação de licitações e convênios. No Brasil quando se fala em público-privado o que logo ressalta é a existência de um campo minado, pois a cultura dominante é a do chuncho recíproco. Vide a questão dos grandes projetos nacionais como os das ferrovias e toda a sequência de casos ligados à Lava Jato e congêneres.
Poder massivo
Nas democracias modernas concede-se máxima importância aos movimentos sociais aos chamados "entes intermediários" (tão destacados nas encíclicas da "Rerum Novarum" às "Mater et Magistra" e "Pacem in Terris"), algo que se reforça com o sentido da democracia direta acatada na Constituinte de 1988. É o caso de instituições como a APP-Sindicato, cuja atuação vai além da representação para um posicionamento político-ideológico vinculado de forma explícita ao PT como se denota agora nos atos de crítica ao impeachment. Isso tem uma tradução em política e o que se nota é que a maior força da entidade não significa aos partidos apoiados maior número de eleitos. O PT, porém, cresce como maracujá de gaveta, o que revela que sua força exterior, em termos de ação direta, ainda é inegável, inclusive como poder de pressão. Se nas demandas salariais houvesse maior reação do governo não pagando horas não trabalhadas, certamente, o cenário mudaria. Parece que isso se dará doravante sob o comando de Ricardo Mauro Costa na área fazendária e isso se estenderia a todo funcionalismo por força da quadra recessiva.





