LUIZ GERALDO MAZZA
Sequela do arrocho
Não vivemos sob o imaginário paraíso fiscal , decantado pelo governo estadual: as evidências estão aí e a Faciap, acompanhada por outras entidades de classe, entre as quais a Fiep, atribui a crise no setor da aviação, inclusive o decorrente do corte de linhas da Gol, ao ICMS aplicado aos combustíveis. Mexem-se para negociar baixa com o governo, mas sabem que o tzar das finanças dificilmente cederá por sua posição obstinada em não perder centavos e até ganhar algum, se for possível, como fixou no orçamento a regra de cortar o Fundo de Participação dos Estados daquele racha para reduzir a cota dos demais poderes e que já encontra resistência no Ministério Público Estadual, hoje disposto a levar ao extremo suas pretensões autonomistas.
Além de todos esses fatores, mais as manobras desencadeadas, à margem da lei, que negam o pagamento de progressões à hierarquia intermediária da polícia e também de promoções, relegando-as à procrastinação de demandas judiciais, há um estudo do Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (Dieese) que enfatiza a persistência de furos fiscais nas contas públicas e que imporão arrochos, com o que se evidencia que o sacrifício sofrido, apesar do amargor da dose, foi insuficiente para o equilíbrio.
Para o Dieese, que por sua destinação é voltado às causas dos sindicalizados, esse contexto torna difícil sua habitual intervenção em defesa dessas demandas em seus memoriais de rotina. Ficou patente esse contexto quando do reajuste funcional do ano passado, que por tradição histórica, tinha característica automática da incorporação da inflação acumulada, e isso foi negado ao maior setor, o do Executivo, num sistema de parcelamento, enquanto os demais poderes eram privilegiados com a observação da norma tradicional.Tudo isso num passe de mágica circense, tal qual a pedalada previdenciária que meteu a mão no capital até então indisponível da ParanaPrevidência para reduzir significativamente encargos com a folha de pessoal, matéria que está no Judiciário, ainda que contando com parecer favorável do procurador da República.
Esse melhor dos mundos da versão oficial, chapa branca, não resiste a um análise superficial, e lembra em tudo o Pangloss, apalermado em seu otimismo, em "Cândido" de Voltaire.
Desemprego
A taxa de desocupação obreira chegou a 10 milhões no Brasil, fruto inequívoco da recessão, e no Paraná só no setor industrial teria crescido no trimestre 3,45%.
Ambivalência
A Câmara Municipal de Curitiba está mais dialética do que nunca, inclusive nas artes de examinar, ao mesmo tempo, projetos com objetivos diferenciados: ao passe livre nos ônibus se opôs o da multa de 50 passagens a quem for flagrado pulando a catraca e à proibição do Uber surgiram pelo menos dois que a admitem sob determinadas circunstâncias. Pelo Uber, uma ida do centro ao aeroporto de Afonso Pena custa R$ 38 quando o preço normal é mais de R$ 70. Quem se vale de um privilégio desses conclui que a Urbs é mais cara que o Uber e não abre mão das suas fontes de receita, como ocorre com a taxa de gerenciamento do sistema de transporte coletivo que o Tribunal de Contas mandou cortar para que a tarifa baixasse e, é claro, houve a reação corporativa em sentido adverso.
Hipocrisia
Afirmação de integrantes do futuro governo Michel Temer de que não haverá restrições à ação da Polícia Federal e no andamento da Lava Jato não convence ninguém pelo simples fato de existir só na Câmara Federal uma bancada de mais de 20 atingidos pelas investigações (22 para ser exato, o que a revela com incontrastável poder de pressão) e, dentre outros, o presidente laureado como o deflagrador do impeachment (falam até em escudá-lo de eventual punição) mais o vice presidente da República e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Uma anestesia do tipo união nacional pode operar nessa direção e tirar a carga punitiva sobre empreiteiras que fazem jorrar dinheiro nas campanhas eleitorais.
Como prelecionava La Rochefoucauld, a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude.
Silêncio
Na Lava Jato, Vaccari e Zelada ficaram em silêncio, resistência prevista em lei só superada pela força e evidência das provas. Assim mesmo, Sérgio Moro acha que tudo termina em dezembro.
Folclore
A morte do Caboclinho mexeu com o histórico de um personagem muito ligado a políticos, dentre eles o mais importante de todos, Aníbal Khury. Essa vinculação de gente próxima ou ligada ao crime sempre existiu e mesmo com a urbanização eles pintavam nos estafes como se dava com Aciolinho que diziam ligado a Acioly Filho. Políticos dos Campos Gerais eram pródigos nesse tipo de relacionamento. De vez em quando, algo como a morte do jornalista Antonio Heleno Amaral no Oeste seguida de várias de policiais e testemunhas, inclusive o carcereiro de Cascavel, numa terrível queima de arquivo, isso há algumas décadas, revela que os resíduos ainda persistem.





