O velho acordão
A vitória do sim, que aparenta ser o consenso, abre caminho para velha expertise brazuca: fazer dela uma proclamação a um ajuste geral e que de saída protege o detonador do impeachment, o mais do que indiciado Eduardo Cunha, ainda presidente da Câmara Federal ao mesmo tempo em que fecha o cerco de proteção ao também investigado Michel Temer. Um brado de confraternização para deixar as coisas acomodadas em nome da restauração do país.
Foi por isso mesmo, que precavendo-se contra esse tipo de mistificação, procuradores da Lava Jato emitiram nota em que afirmam que casos de polícia não se ajustam aos de política, o que é a nossa tradição, a de valer-se de cenários nacionais de suposta convergência para ludibriar a maioria e agredir a lei e as instituições em nome de bons propósitos. E foi justamente na continuidade dessa operação judicial saneadora que Bernardo Cerveró, em seu depoimento claríssimo, se referiu a mais um crime de Eduardo Cunha nas tramoias da Petrobras. De outro lado, tivemos resposta ao voto da deputada Raquel Muniz, que foi pelo sim em nome do seu marido, Ruy Muniz, prefeito de Montes Claros e, na segunda-feira, preso preventivamente sob a acusação de inviabilizar a existência e funcionamento de hospitais públicos e igualmente os filantrópicos pelo SUS ao não prestar serviços pela rede municipal.
A ousadia dos canalhas não tem limites, razão pela qual podem estar pensando, ainda em nome da unidade nacional, em dar um deixa pra lá nas ações da Lava Jato que, afinal, envolve em grande parte a fauna política que se acredita salvadora do país com o impedimento da presidente Dilma Rousseff, o que os livraria, como numa anistia, do mais torpe dos pecados.
De tudo o que está ocorrendo no Brasil nada supera a ação do Judiciário e no caso específico da Lava Jato que tanta contribuição deu e continua dando para a depuração institucional e é isso que justifica o acampamento popular em frente à Justiça Federal em Curitiba, posto que não se possa concordar com algumas palavras de ordem lá colocadas com absoluta falta de senso como a que pede a intervenção militar. Podemos, dentro da ordem legal, tal como se deu com o impeachment, enfrentar crises e contradições como as representadas por tanta gente no comando nacional dos poderes já enquadrados em atos de improbidade e, por isso, a transição que virá com a audiência do Senado em nada afetará o fluxo das investigações em andamento que podem significar um novo ciclo na vida nacional.
Carecemos de um acórdão, amplo e irrestrito, que consagre a Justiça e não de um acordão no velho jeito macunaímico da praça.

Crise
Em fevereiro foi registrada, no mercado imobiliário de Londrina, uma reação positiva que também se verificou na capital em termos de intenção de compras. Agora a notícia ruim também de Curitiba: um aumento de 16% nos distratos abalou a comunidade.

Um teste
Até hoje o governador Beto Richa não teve uma oportunidade como agora para mostrar sua face irrevelada, a de estadista. Afinal, com a votação que recebeu nas duas eleições não deveria perder esse capital de confiança como está acontecendo em acidentes de percurso que vão do massacre do Centro Cívico às penosas apurações da gangue fiscal na Publicano e nos desvios de recursos, pagos antecipadamente, nas construções escolares. A Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2017, encaminhada ao Legislativo estadual, é um teste ao retirar do "racha" entre poderes o Fundo de Participação do Estados, o que certamente se coaduna com a pregação de Mauro Ricardo Costa, secretário da Fazenda, que se referiu em momento muito conturbado às "ilhas de prosperidade", fato aliás comprovado na forma como se tratou o aumento de salários que privilegiou o pessoal dos outros poderes com todos recebendo a reajuste automático da inflação até maio do ano passado e os do Executivo submetidos a um arrocho em parcelas minúsculas até suavizar no início do ano.
A base aliada terá que entender o gesto como um ato estratégico não habitual em Beto Richa e dar-lhe a cobertura para evitar o repeteco da quebra financeira que justificou a convocação de Mauro Ricardo Costa para botar ordem na casa arruinada.

Corte
A Gol deve cortar 37 linhas de voo no Paraná, entre elas algumas com o Rio.

Sanepar
No rolo da Polícia Federal em Foz do Iguaçu o gerente regional da Sanepar, Rodrigo Becker. Foz é uma cabeceira de anomalias no entra e sai prefeito. O varejo também é um campo importante para combater a impunidade crônica.

Folclore
O orçamento de 2017 é de R$ 55,6 bi e a taxa de investimento continua ridícula ainda que engordada pelas estatais, como se dá neste ano com os prometidos R$ 8 bilhões. Ninguém, pelo jeito, percebe o monstro aparatoso e ineficiente e vive a endeusar o aparato estatal, fonte inesgotável de desperdício. Folha do pessoal caminha para R$ 1 bi e meio ao mês. O pior: vamos mal em saúde, educação e segurança, o tão proclamado social.

mockup