E agora o que fazer?
O massacre plebiscitário do impeachment mostrou como é fácil desidratar, liofilizar um mito como Lula e uma base aliada que parecia hegemônica transformada em minimalista. Por isso, exatamente que o processo, tais as transformações em correlação de forças que provoca, de certa forma, aparenta agredir o sentido essencial da democracia e é justamente o que o PT e o residual de forças que o acompanha tenta explorar, ainda que arrasado pelo nocaute sofrido.
Várias vezes o Brasil achou que tinha recuperado a esperança: a derrota das Diretas já bem recompensada com a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, a Constituinte de 1988 que o PT (como se estivesse praticando um ato revolucionário) se negou a assinar, o desfecho dos anões do orçamento, a queda de Collor, a derrubada da CPMF e mais recentemente os registros de avanço judicial no mensalão e na Lava Jato. Claro que tudo é histórico e quanto mais traumático mais forte. Mas esses feitos, quase sequenciais, em pouco espaço de tempo, mostram, a cada instante, um país melhor, com a visão mais nítida dos nossos males e das nossas carências dando a impressão de que a nossa tragédia, em país e nação por fazer-se, só consertará em gerações.
Michel Temer tenta projetar-se de novo como o homem providencial do momento como tantos (Getúlio, Jânio, Juscelino, Collor, FHC e, sobretudo, Lula) e que justamente se valeram de certas circunstâncias históricas, como também se dá nesse momento, para expressarem o salto à frente. A missão de agora, um país com suas finanças afundadas e numa crise moral sem precedentes, não está à altura dos personagens disponíveis: como valer-se de medidas rígidas e duras em termos de austeridade, como se reproduzíssemos o drama recente dos gregos, com a nossa compulsão pela gastança.
Claro que a decisão da Câmara Federal autorizando o impeachment traz um "respiro", um alívio ao sentir coletivo, porém nada assegura que, diante das nossas vocações, possamos dar o passo certo e no momento adequado. A paranoia das medidas duras ronda o ambiente tortuoso das mídias sociais: congelamento de salários de funcionários públicos estaduais, municipais e federais por dois anos, mexida em depósitos bancários, enfim um exercício de terrorismo. Há muitas etapas ainda e a do Senado, que tem tudo para seguir a Câmara, ainda nos reservará surpresas, enquanto o fluxo da Lava Jato, ontem com os depoimentos de Fernando Baiano e Cerveró, mostram os enlaces do lulopetismo com a corrupção, na qual, cada vez mais, chafurda.

Liberdade vigiada
Como Foucault previu o "Panatikon", instrumental que via mas não era visto em "Vigiar e punir", o nosso sistema de tornozeleiras eletrônicas se mostra vulnerável como de viu nas práticas de 34 presos que se valiam do benefício e dele abusaram.

Voto antecipado
Pelas mídias sociais, em que navega como poucos, o senador Roberto Requião faz um pouco de suspense com seu voto no impeachment quando a câmara revisora for consultada. E sugere com algum tom de sutileza que nada fará que deixe má sua biografia para netos e bisnetos. Não apenas os militares de 1964 deixaram de fazê-lo como os da vitória dos bolcheviques sobre os mencheviques também. Num período histórico foi uma boa herança, mas também houve o momento de superá-la. Essa reflexão é um exercício para a fala que fará como os deputados na hora do voto e que, de modo geral, não os colocou bem pelo mau gosto e, em certos casos, pela esparramada pieguice, digna de dramalhão mexicano, como os que juraram pela família e o cão de estimação.

Recado
Em muitas das declarações de votos houve alusão a adversários políticos e uma delas, a da deputada Christiane Yared, se referiu especificamente ao governador Beto Richa ao afirmar que sua hora chegará. Uma afirmação hermética, que pede interpretação, e que pode estar ligada aos processos da Publicano e da Quadro Negro como de outra questão qualquer ou do imaginário pessoal da parlamentar mais votada.

O governo
Querem ver uma pessoa que expressa como ninguém o governo em movimento? É a Claudia Silvano, do Procon, que estava ontem sintonizadíssima com a bronca nacional dos órgãos de defesa do consumidor com o novo modelo de cobrança por dados das operadoras telefônicas. Se tivéssemos alguém para expressar a atualização e o vigor de cada repartição como ela, e a gestão Richa seria excepcional. Dá para comparar o paradigma com agentes fiscais, policiais, de saúde, etc.

Folclore
Nestor Cerveró chorou ontem no seu depoimento, o primeiro depois de acertar a delação. Pelo jeito os outros é que chorarão muito mais.

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