Analogia perniciosa
Se observamos o comportamento dos governos federal e estadual diante das suas adversidades com a Lava Jato e a Publicano, fica nítido que, a despeito da maior carga das denúncias na área da União, ela tem comportamento mais republicano do que o time do Palácio Iguaçu: não fez uso de recursos extremos para evitar o fluxo processual. Entre os que poderiam tentar obstruir havia a própria Polícia Federal subordinada ao Ministério da Justiça que respeitou seus níveis de autonomia, a tal ponto que o seu titular por pressão das bases foi removido e no momento é, ironicamente, a melhor figura governista no processo como chefe da Advocacia Geral da União nos embates no STF e na Câmara Federal.
Ao revés, no Paraná, desde o início, o governo tentou "melar" a investigação sobre desvios na Receita Estadual, especialmente depois que a delação premiada de Luiz Antonio de Souza fez referência à drenagem de propinas para a campanha da reeleição. Justamente constrangido com as referências ao seu nome e da esposa (em função de ela valer-se de auditores fiscais para a campanha assistencial de cobertores) contratou o criminalista Renê Dotti visando tirar a pendência da primeira instância, em função do foro privilegiado, para o STJ. Como naquele momento Beto Richa não era investigado, o processo teve continuidade, não houve o desejado bloqueio, tal como funcionou no Legislativo estadual na Operação Gafanhoto, cujos mais de 80 parlamentares indiciados de várias legislaturas se beneficiaram com a prescrição, em muitos casos com os delitos já extintos pela passagem do tempo, presentemente o governador é alvo da instância superior.
As tentativas de "melar" o procedimento do Gaeco ficam nítidas no empenho da Procuradoria Geral do Estado em contestar a principal peça acusatória decorrente da delação premiada, ainda que supostamente voltada para discutir os bens (duas fazendas) colocados à disposição pelo réu para ressarcir prejuízos ao Erário em torno da origem dominial e de valores. Mas a declaração do governador anteontem reafirma que o maior interessado nas investigações é ele, conquanto nada tenha referido à coincidência de que tanto na Publicano quanto na Quadro Negro pessoas de sua intimidade e até mesmo parentes, ainda que cada vez mais remotos, estejam diretamente envolvidos e apontados como operadores. O "não sabia" de Lula não é convincente, mas é bem mais metabolizável, ainda mais quando firma convicção de que a roubalheira vem de antes do pai dele, José Richa, há mais de 30 anos, e que só ele, Beto, procurou tomar providência. Em política é assim: quem a analisa e não a avalia, deve sempre ter à mão alguma dose de Engov.

Pingam votos
Nas redes sociais começam a pingar votos dos indecisos. Quem o fez, ontem, foi o deputado Sergio Sousa (do grupo dos amigos do Pessuti) declarando fazê-lo pelo impedimento, prova de que a pressão sobre os parlamentares, de lado a lado, continua. Especulava-se que Valdir Rossoni reveria seu afastamento da Câmara, ainda que provisório, temendo sua substituição por Osmar Bertoldi, que está preso e entrou com recurso na condição de pretendente ao posto.

Campanha
Como está em campanha e afirmando que investe bilhões em educação e saúde, Gustavo Fruet é pressionado, seguidamente, por obras paradas na área social e ontem a onda foi em cima de uma unidade de saúde na Cidade Industrial, 69% concluída, que não destrava nem com reza braba.

Gincana
Ações do MST nas estradas, vários desses bloqueios no Paraná, sinalizam resistência à queda de Dilma: aparenta revolucionarismo, mas não passa de gincana chapa branca nutrida por dinheiro público via ONGs. Em 1964 o CPC, Centro Popular de Cultura, da UNE, sempre oficial, também com seus autos populares que ateavam fogo na Guerra Fria, no pretexto de defender Jango, aparentava, ainda que com tom festivo, resistência guerreira. Não há uma pessoa séria que tenha servido a fábricas de ideologia da época como o CPC e o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) que não tenha feito uma revisão desse passado. Um deles o sociólogo Guerreiro Ramos, orientador acadêmico do saudoso Belmiro Castor Jobim.

Folclore
Todo esforço foi despendido pelo governo federal para adiar, pelo menos, o impeachment, mas o STF mostrou-se impermeável à manobra. Com toda essa judicialização, a arenga do "não vai ter golpe" persiste. Como os dois lados se dizem com números de votos para a vitória amanhã, percebe-se que até nesses momentos cruciais não perdem o hábito de enganar o respeitável público a maior vocação dos políticos.

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