LUIZ GERALDO MAZZA
Sinais de depressão
A Confederação Nacional do Comércio fez, estes dias, uma sinalização forte no sentido de que nos aproximamos da depressão: ela estima que neste 2016 haverá a demissão de 253 mil trabalhadores em função de uma redução de 8% nas vendas do varejo. Já no ano passado algumas das marcas da crise ficaram visíveis com o encerramento de atividades de numerosas unidades das maiores redes de super e hipermercados, inclusive das transnacionais.
O chamado setor terciário da economia, o de serviços e transportes, é um dos balizadores da economia por sua expressão agregadora e nele desponta o varejo, área hoje mundializada e detentora do maior know how na especialidade. É verdade que a atmosfera psicossocial em função do impeachment torna difícil raciocinar sem o risco do contágio, visível na postura comportamental dos indivíduos num divisionismo radical, com um traço fratricida.
Diz-se que se houver o afastamento de Dilma Rousseff, o quadro mudaria, mas na verdade, tanto essa hipótese como a mais abrangente de alcançar Michel Temer, como as pesquisas de opinião apontam, apenas geraria um momento de descompressão, já que os fatores internos da recessão persistiriam dominantes. Essa melhora temporária não nos tiraria das areias movediças em que nos encontramos, cada passo anunciando um novo abismo. Há ação interativa entre o político e o econômico, ambos se realimentando no processo, o que cria a impressão de que o político, por sua natureza, libertaria o econômico e a sociedade voltaria a operar com a regularidade anterior.
Trata-se de uma questão filosófica pertinente: a política é vivida com mais intensidade do que a economia e nesse momento aparenta uma autonomia incontornável apesar de não estarmos em período eleitoral, momento do calendário para o pleno engajamento. Agora não há espaço para o nihilismo ideológico-doutrinário e somos impelidos ao alinhamento por maior que seja o horror à política e suas deformações na qual um dos seus insumos básicos, no caso brasileiro, é a hidra da corrupção como captamos diariamente..
Um batalhador
O criminalista Renê Ariel Dotti, em entrevista à TV Record, defendeu o juiz Sérgio Moro mesmo no caso tão discutido daquela gravação da conversa entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afinal já investigado e que teve negada a sua posse, isso pelo Supremo Tribunal Federal, na Casa Civil. Como é importante ouvir as opiniões críticas ao papel que aquele magistrado vem desempenhando, é relevante levar em conta os testemunhos favoráveis, especialmente quando partem de um dos maiores nomes da ciência penal no Brasil.
Registre-se que também na controvérsia jurídica os ânimos estão acirrados e nem sempre as posturas adotadas conseguem uma linha de distanciamento. Renê foi dos mais destacados advogados de acusados pelo regime militar instaurado em 1964 e mormente os da carga contra os jornalistas de "Última Hora", processo que gerou um livro a respeito.
Vaza tudo
Estamos em tempo de enchente, mas o forte está na vazante, naquilo que vaza como o discurso de 10 minutos do Michel Temer saudando os deputados pela vitória antecipada do impeachment de Dilma Rousseff e se apresentando como estadista (Rui Barbosa e Joaquim Nabuco são "fichinha" pro homem), mais um pra salvar o Brasil. Com Temer, ao contrário do que propala, há muito a temer. Outra coisa: país que precisa de salvadores e de homens providenciais não merece ser salvo. O Brasil mais parece um urinol vazando, uma grande cloaca e ainda querem que aceitemos personagens sub judice para expressar nossas aspirações, a maioria deles enquadrada na Lava Jato.
Contar com o ovo no fim da galinha é sempre um esperado risco. Quase o repeteco da cartinha à presidente Dilma.





