Rebelião silenciosa
No momento em que Curitiba registra de seis e oito arrastões a restaurantes (muitos ocultam o fato como um de Santa Felicidade em que tomaram o dinheiro que o dono havia retirado de agência bancária das Mercês e foi roubado por homens armados) e bistrôs, a Segurança responde com o aluguel de 200 viaturas ao custo de R$ 11 milhões para tentar conter a onda. Mas o clima interno da corporação é quase de resistência devido às prisões dos poucos operacionais existentes como Rubens Recalcatti, Luis Carlos de Oiveira e, sobretudo, pelo não pagamento das progressões (setores da hierarquia intermediária da polícia) e das promoções no caso da Polícia Militar. Para que se tenha uma ideia do que representa esse represamento de recursos, ele alcançaria hoje cerca de R$ 60 milhões e, que se persistir, ao fim do ano chega aos R$ 100 milhões: há mais de 173 ações de servidores contra esses bloqueios e quando beneficiam os proponentes o governo recorre e nada prospera.
O aluguel das viaturas também evidencia outra crise estrutural, pois a frota pública é de 4.800 veículos e tem nada menos de 1.400, postos fora de combate, alvo de malandragens como aquela de operação que o Gaeco investiga, na área das oficinas, na região Norte, mais uma façanha do parente, cada vez mais distante (de repente se liga ao homem de Cromagnon), o Luiz Abi que de vez em quando é visto rondando repartições.
Há em função de todos esses fatores um ambiente de apatia na Segurança, visível na campanha da Adepol, associação dos delegados de carreira, em cujas publicações se referem a casos de corrupção, detectados pelo Ministério Público (Publicano, Quadro Negro) na gestão de Beto Richa.
Portanto, a crise da área não é apenas material como se dá na grita contra o abandono dos equipamentos da polícia científica e nesse episódio das viaturas; ela é também moral e mina os fundamentos da solidariedade corporativa, visível nas formas maliciosas que o governo se vale para não pagar suas obrigações a civis e militares, alimentando a revolta.

Irracionalidade
O que se viu ontem no aeroporto de Afonso Pena em manifestação estúpida e covarde contra a senadora Gleisi Hoffmann é uma evidência daquilo que abordei sobre o clima de intolerância que marca o momento brasileiro em função da histeria política que nega, por princípio, o respeito à alteridade, ao direito que tem outro de expressar seus valores. Como ensinava Hannah Arendt a liberdade mais importante é a do "outro" e não a de quem a desfruta e a transforma em valor absoluto e incontestável.
E, depois, novas cenas de intolerância no plenarinho do Legislativo estadual em ato sobre mão de obra estrangeira no Paraná e transformado numa guerra ideológica entre os que estão contra e a favor do impeachment. Surpreendeu que até o deputado Tadeu Veneri, uma reserva de concórdia da classe política, se perder e tentou a retirada de manifestante do recinto. Pelo ocorrido com a senadora Gleisi, alvo nesse episódio de novas agressões, tem-se a impressão que dentro em pouco as pessoas serão mais do que vaiadas para sofrerem agressões físicas nas ruas.
Quem pedir paz e fizer apelos pela harmonia, certamente, será trucidado pelos dois lados por imposição da psicose reinante. Uma tensão de guerra civil espanhola.

Rodeio
A reação contra maus-tratos a animais está presente mais uma vez entre nós em cima de um grupo gaúcho que explora rodeios. Também nessas questões há intolerância como no uso de animais para pesquisas ou resistência ao seu amestramento em circos ou zoológicos. Vivemos tempos de fúria.

Problemas dominiais
Novamente a questão dominial é fundamento de conflitos agrárias com esse choque entre seguranças da Araupel, policiais militares e MST com dois mortos e feridos, Surpreende o fato de serem extremamente oscilantes os entendimentos da Justiça sobre a propriedade, no momento, o que não se dava antes, com a tese de que aquelas terras pertencem à União. O Paraná padeceu muito em outros pontos do território, inclusive Oeste e Sudoeste, com essa imprecisão dominial que chegou a produzir, no fim dos anos cinquenta, a guerra entre posseiros e colonizadoras só resolvida em 1961 com o acerto entre o governo Ney Braga e o de João Goulart com a mediação do Getsop, Grupo Executivo de Terras para o Sudoeste, que tinha comando militar.

Folclore
Quando o PT ainda não detinha o poder, lá pelos anos oitenta, a sua militância era radical (aqui no Paraná, José Richa perdeu a paciência em negociar com eles no processo de participação, uma das linhas doutrinárias da gestão, acusando-os de confundirem democracia como democratismo e assembleísmo) ao ponto de agredir Mario Covas, doente, em manifestação de professores em São Paulo. Agora, os dois lados se contaminam com intolerância e contagiam até os neutros.

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