LUIZ GERALDO MAZZA
O raciocínio inviável
Ainda que sem os condimentos da Guerra Fria, vivemos hoje um dos momentos mais difíceis em termos de convívio social por força do quadro político enfrentado: o divisor radical de posturas é de tal ordem que o engajamento das pessoas, com nível elevadíssimo de interesse nas contingências nacionais, leva a uma forma exasperada de maniqueísmo, que nega matizes e impõe uma polarização em que cada um dos lados se recusa a aceitar o´outro. Exemplos terríveis são listados diariamente como aquele episódio da pediatra que se recusou a atender um bebê de cliente por ela ser petista no Rio Grande do Sul.
Quanto mais avança, quer o processo de impeachment quer a sequência de revelações da Lava Jato, o radicalismo se aprofunda e percebe-se que o tecido da harmonia social se degrada a um ponto que devasta os pilares restantes da convivência, algo somente captado no Brasil em quadros de guerra civil como os da revolução federalista, início da República, em que o avanço das tropas guerrilheiras sobre Curitiba - detido em parte pela ação do Barão do Serro Azul - foi respondido com o ato de sua execução na Serra do Mar. O Brasil não era aquele tempo a sociedade complexa e moderna e com instituições consolidadas como hoje, razão pela qual surpreende esse ciclo que nega a cordialidade brasileira decantada por Sergio Buarque de Holanda.
Tal conflito se expressa no interior dos jornais que adotam linha aberta e pluralista nas formas sutis e escancaradas como se agridem colunistas e repórteres em seus textos e reflexões. O historiador Lira Neto, autor da mais completa biografia de Getúlio Vargas, fez alusão a essa metáfora da exclusão do outro expressa nos panelaços da moda como forma extrema de negar a alteridade nos atos de manifestação política e ideológica. O cenário é mais agudo do que o observado às vésperas de 1964 com os nutrientes da Guerra Fria, a visível presença de agentes da CIA e assemelhados na manipulação do processo, embora a analogia alerte para possível agravamento que sairia da metáfora para a violência física e a eliminação mesmo das pessoas dado o nível de irracionalidade ora observado.
A impressão que se tem é que não temos nas áreas em confronto pessoas com capacidade de persuasão e convencimento, com um mínimo de porte de estadista, para em nome dos matizes do espectro político, recomendar o desarmamento espiritual e os fundamentos de um pacto que permitisse a restauração do hoje inimaginável diálogo. A derrota do impeachment fará de Lula algo como o Brizola de 1961, sobrando prepotência e arrogância, como revide à soberba dos adversários e a sua aceitação nada significará a não ser a sensação provisória de uma atmosfera de descompressão que pode operar como um respiro mas nunca a certeza de que a crise foi vencida.
Travado
Esforça-se Gustavo Fruet para destravar seus projetos estratégicos, menos o do metrô, ora descartado por sua notória inviabilidade, dentre os quais os de mobilidade que não andaram em sua gestão como avanços na Linha Verde, mais força ao BRT e melhoras no trajeto do Inter 2. Para tanto, há mensagem em trâmite na Câmara Municipal autorizando empréstimo de R$ 120 milhões no Banco do Brasil para tais obras. Se não sair a obra, marca-se esses dias com mais uma esperança como sempre descartável, adequada a período eleitoral.
Gripe
Ao lado da quase paranoia da dengue e suas terríveis consequências temos agora com a gripe H1N1 um novo sobressalto com 71 ocorrências em todo o Paraná e situações pontuais como o surto havido entre presos da PenitencIária de Cascavel e duas mortes em Maringá e São José dos Pinhais. Houve também dezenas de casos de gripe comum, o que afinal justifica a ordem de mobilização na Secretaria de Saúde.
Justiça
Os assassinos de Marcos Gogola, morto em emboscada ao conduzir um preso ao dentista em Campo Largo, pegaram uma das sentenças mais duras, o autor mais de 50 anos e coautores mais de 40. O fato gerou uma crise porque esse tipo de trabalho é normalmente da seara da PM e a morte do policial civil com grande liderança na corporação produziu revolta, mais uma para evidenciar deficiências estruturais da segurança.
Placar
Na maioria das unidades federativas é dominante a vitória do impeachment e apenas em raras unidades (Bahia, Maranhão) se dá o contrário. Todavia, é tão grande o número de indecisos que qualquer previsão é precária. No momento, Dilma escapa, mas o jorro das denúncias continua da mesma forma que as negociações de postos ministeriais que, afinal, pode decidir a parada. O Paraná não fica de fora se o PP acertar.
Folclore
31 de março de 1964, o Palácio Iguaçu estava mobilizado pela Redentora, mas os generais Cordeiro de Farias e Nelson de Mello andaram por aqui para estimular Ney Braga. Num momento de agito em torno de proclamações e manifestos, o governador vê o jornalista José Curi da revista Panorama com papéis à mão e pensou tratar-se de alguma colaboração a favor da quartelada. Gaguejando como era do seu costume, Curi explicou que estava ali com suas faturas para encaminhar ao pagamento. Mais realista que legalistas e golpistas.





