LUIZ GERALDO MAZZA
Lava Jato internacional
Uma observação recente do sociólogo Demetrio Magnoli na imprensa fez referência que vai além da alegoria, ao que chamou de Internacional Lulopetista no papel desempenhado na área externa pelo governo e sua aliança geopolítica seletiva em relação à clientela que com ela operava nas empreiteiras gigantes do país. Por força dessas investigações, o rastreamento acabou ganhando dimensões cósmicas na atuação de múltiplas offshores, dentre as quais algumas no Panamá em que um escritório especializado (Mossak Fonseca) teria aberto empresas para 57 investigados no petrolão, a pedido da Odebrecht.
Isso dá uma ideia da relevância dessas investigações ontem reforçadas pela mídia mundial com envolvimento de lideranças internacionais a suspeitas de fraudes, através de 11 milhões de documentos confidenciais do escritório do advogado panamenho Mossak Fonseca, divulgada por um consórcio mundial de jornalistas e revelam negócios de pessoas próximas ao ditador do Egito Hosni Mubarak e do atual presidente russo Vladimir Putin. Tal papelório cobre negócios de quarenta anos do escritório panamenho e com vínculos com nada menos de 72 chefes de Estado que ocupam postos hoje ou ocuparam no passado.
Ao contar com esse tipo de operador em lavagem de dinheiro, os brazucas, gente das empreiteiras e burocratas do governo mundializaram suas atuações em que pese a firmeza ideológica contra qualquer contaminação neoliberal derramada nos discursos. Trata-se de orgulho máximo Curitiba ser chamada de república pela atuação firme da Lava Jato e como ironia pelos apanhados no megachuncho.
Isso se inserirá, de forma indelével em nossa história na perspectiva de que estamos vivendo um momento especial, pelo que tem de desmistificador do contubérnio público-privado, que nos comanda e que pela vez primeira é enfrentado, desnudado e posto na prisão ou sob ameaça de constrangimento, da qual não escapou nem um ex-presidente da República e da qual dificilmente escaparão chefes da representação parlamentar.
No chão
Enquanto voamos alto em feitos investigatórios de caráter internacional, caímos no chão da crua realidade com a censura da Secretaria de Saúde ao município de Paranaguá, área mais crítica da epidemia de dengue realçada pela quantidade de mortes, pela inobservância dos protocolos mínimos de cautela sanitária ontem evidenciados em reunião das áreas estadual e municipal e o Ministério Público para corrigir o inaceitável comportamento. O ônus municipal não é sequer contestado pela prefeitura, cujo titular é médico.
Janela
No folclore havia um versinho assim: "Juca Peruca, ladrão de açúcar, pulou a janela, caiu na arapuca". Pode estar ocorrendo esse tipo de risco na troca de partidos aberta com a tal da janela que permitiu um reassentamento de mandatos em novas legendas como se deu em Curitiba com pelo menos cinco vereadores. A ministra Katia Abreu quer facilitar as coisas para a defesa da presidente, saindo do PMDB. Ela é mais forte, pela expressão corporativa no agronegócio, mantendo-se no PMDB e consolidando uma dissidência ora minoritária. Há poucos nomes com sua expressão no mundo que representam. Bem melhor do que a maioria oportunista que se alinhou ao impeachment, esquecendo que dentro em pouco tanto Dilma como Temer passem a sub judice com o petrolão.
Semelhanças
Há, como se percebe no andamento da Publicano, algumas semelhanças entre malfeitos do PSBD e PT: Monica Melo, mulher do marqueteiro João Santana, admitiu, em delação, ter colocado R$ 20 milhões em caixa dois da campanha eleitoral de Dilma Rousseff e no Paraná uma delação de fiscal, aquele que abriu mão de duas fazendas para compensar seus chunchos, disse que mais de R$ 4 milhões afanados irrigaram a campanha de reeleição de Beto Richa. Conservadas as devidas proporções, é algo aritmeticamente parecido em termos de valor. Não fica bem o roto rir do remendado. Aliás, as semelhanças persistem, pois quem iniciou o mensalão foi o tucano mineiro Eduardo Azeredo, julgado por habilidade dos seus advogados bem mais tarde e na primeira instância e já condenado.
É claro que as dimensões das coisas no mundo provinciano parecem ridículas diante das nacionais, mas fica claro que valer-se do foro privilegiado é também arma comum: o governo federal a utiliza na nomeação do ex-presidente Lula para a Casa Civil da mesma forma que Beto Richa o faz para proteger o seu lugar tenente, Ezequias Moreira, que nomeou secretário após denunciado na Justiça por ter armado a nomeação da sogra como funcionária fantasma do Legislativo, que ela própria desconhecia, e cuja remuneração embolsava.
As coisas da província são sempre mais anedóticas do que as nacionais, o que não impede que dê para ressaltar-lhes as inegáveis semelhanças de fundo. Muitos achavam que aquilo era a exéquia precoce do governo, mas o chefe tranquilizou com alguns recados que pareciam uma homilia de pregador e doutor em teologia: mais importante é combater o pecado e não o pecador. Está aí um argumento para o lulopetismo utilizar e limpar a barra de todos os peixes e tubarões apanhados na Lava Jato, se é que "cola".





