"Os protestos e pretextos de hoje também não serão suficientes, mesmo que avassaladores"



Um momento vital

Convocação às ruas tem o sentido da "provocatio ad populum" dos romanos. Nossas escassas experiências na modalidade mostram que nem sempre se dão como seus articuladores esperam. Historicamente, temos as quebradas de cara de Jânio Quadros e de Collor, o primeiro tentando voltar ao poder nos braços do povo com a sua patética renúncia e o segundo subestimando as denúncias de corrupção de sua gestão e acreditando que ainda se achava aureolado pelo Ibope quando convocou a população a vestir-se de verde e amarelo e tomar as ruas e que ela respondeu ao trajar-se de luto e sair de cara pintada.
Por essas razões é que se confere especial relevância às mobilizações de hoje em todo o país tanto dos adeptos do lulopetismo como dos seus mais radicais adversários. É verdade que no PT há alguma dúvida: a presidente Dilma Rousseff recomendou prudência e contenção dos aliados, postura idêntica à do partido no Paraná, mas isso não é consenso em outras unidades federativas como a de São Paulo que recomenda o alinhamento para mostrar força.
O maior divisor de águas da política brasileira, que redundou na Redentora de 1964, que havia simplesmente recuado em 1961 ante a "guerrilha" radiofônica de Brizola contra o golpe à posse do seu cunhado (que afinal não é parente nem distante como esse do Paraná) Jango Goulart na Presidência da República. O legalismo levou a melhor e isso porque o general Machado Lopes, comandante do Terceiro Exército, levando em conta o grau de coesão e de arregimentação da Brigada Gaúcha percebeu que havia o risco de um enfrentamento e de uma inevitável guerra civil e mediou no sentido da paz, o que foi acompanhado de exigências como a do parlamentarismo, para conter a ânsia de militares e políticos inconformados.

Teste de 1964

Em 1964, no clímax das ações, o governo desafiou a oposição ao combate de rua e para tanto montou o aparato gigante do comício das reformas de base na Central do Brasil. Um público superior a 350 mil pessoas era o escore da vantagem na provocação logo respondida, num quadro de fermentação ideológica da Guerra Fria pelas marchas com Deus e a Família pela Liberdade, que ocuparam as principais ruas do país com, no mínimo, o dobro do público chapa branca em cada uma dessas manifestações.
Obviamente, a CIA e organizações voluntárias como o Comando de Caça aos Comunistas estavam envolvidos assim como duas forças ideológicas, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), do estrategista Golberi do Couto e Silva, à direita civilizada, e o Instituto de Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), da direita furiosa do deputado federal e homem de TV de programas patrióticos Amaral Neto. Do lado oficial havia o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), criado ao tempo de Juscelino Kubitschek para emular com a outra fábrica de ideologia, essa do Exército Nacional, a Escola Superior de Guerra, que desenvolvia a doutrina da revolução permanente solidamente fincada em fundamentos geopolíticos em defesa do mundo ocidental e suas instituições livremente construídas, afinal desafiadas de um lado pelo socialismo soviético e de outro pelo chinês e variações de pequena monta.

Ar magnético

Como agora há uma atmosfera de denso magnetismo ideológico, menos sofisticado do que nos anos sessenta. De um lado, a tese de que se houver impeachment há golpe, mesmo que aprovado no parlamento, como se sugeriu primariamente com o impedimento à unanimidade pela Corte Suprema do novelesco padre Lugo, do Paraguai, não apenas pai da pátria, mas também de muitos filhos como reclamavam várias senhoras. A deturpação político-ideológica foi de tal ordem que resolveram os aliados da bufoneria, Brasil no meio de Bolívia, Equador e é claro a Venezuela, tirar o Paraguai do Mercosul como sentença. Isso dá bem a medida do clima que pode se reproduzir agora no Brasil. O PT, como lembrei ontem, levou sua bancada da Carta de 1988 a não assiná-la num gesto como se insuficiente fosse. Talvez, a metáfora da entrega do texto a Lula pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, no meio da semana, tenha o sentido de lembrar do fato histórico e do gesto de menosprezo pela Carta-Cidadã do doutor Ulysses, ora tão invocada como balizadora da vida nacional por Dilma que se recusa a admitir a renúncia, direito inegável, todavia que não tira o Brasil da inércia. Lula também era constituinte, um dos mais importantes, e não a assinou.
Os protestos e pretextos de hoje também não serão suficientes, mesmo que avassaladores. A ideia de que cada momento é a vitória final, apenas dissimula o Apocalipse: diretas já, vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, Carta de 1988, derrubada de Collor, anões do orçamento e mesmo as de agora da Lava Jato com a cana dos ricos e a condução coercitiva de Lula apenas se circunscrevem ao momento, às circunstâncias que as modelam, como será da mesma forma com as sequelas possíveis das celebrações de hoje.

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