LUIZ GERALDO MAZZA
Híbrida desde 1988
No encontro entre PSDB e PMDB de anteontem, visando a paz no Brasil mais do que tudo, voltou-se a falar num regime híbrido de parlamentarismo e presidencialismo, reduzindo as atribuições de Dilma Rousseff na nova ordem, evitando-se, porém, as consequências e traumas do impeachment. Não é a primeira que se fala nisso e no Brasil de 1961, depois da renúncia de Jânio, e resolvida a pendência militar que se opunha à posse de Jango, uma saída parlamentar (para evitar os excessos da tradição presidencialista) foi justamente a adoção do parlamentarismo.
Na elaboração do texto de 1988 houve, antes de tudo e por obras e artes dos tucanos, dentre eles Mario Covas e José Richa, uma forte pressão parlamentarista que emplacou vários itens do regime de gabinete e que só numa determinada altura foi contido. Ficamos, no entanto, com uma linha híbrida, não exatamente esquizofrênica, perturbadora em termos lineares e de doutrina como os fatos vieram demonstrar.
Na histeria maniqueísta que tomou conta do país qualquer mediação que fuja à linearidade da tradição constitucional será chamada de "golpe", como se o PT, isso só para lembrar, não houvesse se recusado, por suas bancadas, a assinar o texto da Carta de 1988 que Renan Calheiros deu a Lula num gesto mais do que simbólico dias atrás. Essa intervenção conciliatória, de menor trauma que o impeachment já colocado na pauta parlamentar, desconsidera o exame de outra e viável solução: a cassação da chapa eleita por decisão do STF em função do propinoduto do petrolão, aí sacrificando também um dos artífices da concórdia, o vice Michel Temer, que na pior fase de Dilma andou ensaiando o papel de salvador e unificador da pátria até com um programa liberal e privatizante como saída, o que só estranho às nossas tradições populistas e patrimonialistas.
No Brasil a história, como tenho dito, não se dá como tragédia e se repete como farsa: ela é reprisadora por falta de imaginação. De outro lado outra constante decorrente da reflexão de Marx para Hegel é a que temos mais farsa (e a fase atual tem todos os condimentos disso) do que história.
Hamlet
"Ser ou não ser, eis a questão", dizia o atormentado príncipe de Elsinor como se em suas elucubrações houvesse a conclusão de que "ser e não ser é que não pode ser" , enfim uma acrobacia sobre essências. Há quem imagine que o nosso príncipe e principal eleitor, Beto Richa, ficará em situação semelhante à de Hamlet lá por 2018 antes de entregar a rapadura para Cida Borghetti. Ocorre que até lá Ratinho Júnior com seu espaço transformado no PSD já será candidato e disposto a impedir a reeleição de Cida, inclusive nutrido pelo ministro Kassab em ações municipais.
Urge pensar bem porque quando apoiou Ricardo Barros para o Senado não percebeu que o seu correligionário Gustavo Fruet tinha mais chances de ganhar a parada de Requião, com o que se isolaria o atual senador. Governantes nem sempre têm a firmeza como a de Ney Braga quando optou por Paulo Pimentel para derrotar seu ex-cunhado Munhoz da Rocha e que o havia lançado na política, primeiro como chefe de Polícia e depois elegendo-o como o primeiro prefeito de Curitiba em 1954. O próprio Bento era tão liberal que não controlou as pulsões de seus aliados em seu governo do qual saíram nada menos de três candidatos Mario de Barros, Othon Maeder e Luis Carlos Tourinho - e que dividiram tanto o eleitorado que Lupion retornou, pois naquele tempo não havia segundo turno.
Atrasados
Se o governo estadual vier a ser impelido a pagar os atrasados em progressões, a conta só na Segurança, desses dez meses, estaria em nada menos de R$ 38 milhões. Economia do tzar financeiro pode ser uma bomba-relógio.
Metrocard
Promessa da Metrocard é de regularizar tudo nas linhas metropolitanas na segunda-feira. Mais uma sequela da quebra da integração feita por Fruet.
Folclore
Além de poderem ocupar espaço público, moradores de rua estão agora autorizados a utilizar as privadas públicas. Várias lojas fecharam porque eles permaneciam dormindo no horário comercial em seu entorno. São as vacas sagradas que nem precisam mugir para reivindicar, tal o senso comum de que têm todos os direitos e poucas obrigações. O Brasil é muito ruim em gerir a fronteira do público-privado como se vê na Lava Jato.





