O recuo do bode
O bom desempenho de Lula nos episódios da semana passada vão demonstrando que ele aderiu ao papel de vítima e com tal intensidade que pretendia valer-se da própria Polícia Federal no sentido de instrumentá-la ao exigir que o algemassem. Algo, enfim, como botar a coroa de espinhos na cabeça de Cristo, como já o demonstrara também ao reagir às convocações para depoimento, inclusive aquela com batalha de rua na Barra Bonita.
Na impressão do público, o ex-presidente levou a melhor o que nem por isso obrigaria a Lava Jato, através de sua força-tarefa, ir além das explicações técnicas que colocou inclusive mostrando que aquela, a despeito da importância do personagem, era a 117ª medida de condução coercitiva no andamento do processo, o que independe do histórico dos investigados que podem ser donos das maiores empreiteiras, burocratas e executivos como também ex-hierarcas do Palácio do Planalto, imposição essa republicana.
Efeitos ocasionais de traço adverso fazem parte dos riscos de uma operação em país que se habituou à prática rotineira da corrupção de um lado e da impunidade que a alimenta e fortalece, dando-lhe status de direito adquirido e, sobretudo, consuetudinário porque decorrente de uma cultura solidamente assentada. Embora a consciência de que situações como a vivida são apropriadas à sociedade do espetáculo em que coexistimos, a Justiça não tem porque agir como se obrigada fosse a marcar um gol de empate para a torcida e sim continuar a colher elementos, provas, depoimentos pela conclusão do seu trabalho, aí, sim, mostrar que o recuo tático do bode pode ser o impulso para a marrada final.
Outro bode
O depoimento ontem em Londrina do auditor Luiz Antonio de Sousa, delator premiado na Publicano , reafirmou tudo o que havia dito sobre a quadrilha fazendária, a forma como agia e enfatizando a circunstância de ter havido transferência de mais de R$ 4 milhões das propinas para a campanha de reeleição de Beto Richa. Exemplar o fato de isso se dar na província, área mais fechada do que a nacional para averiguações do gênero face à postura das instituições locais habituadas à composição de interesses como se vê no episódio paulista do assassinato do prefeito de Santo André, amarradíssimo e com conflitos de posicionamento entre a polícia judiciária e o Ministério Público estadual. As ações do Gaeco do MP estadual ora libertas das pressões (como aquelas visíveis no órgão antecessor, Promotoria de Investigações Criminais, a PIC, que chegou a ser alvo de atentado à bomba) aparecem com destaque tanto nessa operação para desmontar a quadrilha fiscal como na outra dos chunchos das construções escolares.
Por sinal que em ambos os casos pessoas intimamente ligadas ao governador, porque aliados em práticas desportivas, aparecem como beneficiários ou intermediários, o que revela permeabilidade extrema em relações que no mínimo exigem apuração quer em favor de Beto Richa por estar sendo explorado em sua boa-fé por aproveitadores ou até em seu prejuízo na sua condição de autoridade maior do Estado e que deve ter senso de escolha nas suas amizades e cautelas com os mais próximos.
Para complicar o quadro, o advogado do delator premiado, Eduardo Duarte Ferreira, acha que o seu cliente depende de segurança maior porque corre o risco de sofrer atentado. Não é para menos já que a trama, que envolve tanta gente entre fiscais, contadores e empresários, tem ele como testemunha acusatória principal. Isso confere maior dramaticidade ao andamento do processo e exige cuidados desdobrados para evitar o indesejável. O maior interessado no caso passa a ser o governador e a instituição que prestigiou quando ameaçada por desavenças internas (atrito com o secretário de Segurança) o Gaeco, braço-chave do Ministério Público.

Em alta
Especulava-se ontem que o mestre em Direito Criminal, Juarez Cirino, comporia a defesa do ex-presidente Lula. Vários advogados paranaenses participam da Lava Jato, tanto na defesa quanto na acusação. Quem carece de reforços é, visivelmente, a defesa.

Inflação
Curitiba já não tem mais a inflação maior das capitais, mas continua latejando com alta de 0,75% em fevereiro. Para isso a tarifa de ônibus contribuiu com 16% e vai subir de novo.

Folclore
O senador Requião, em reunião política no Rio Grande do Sul, levou uma vaia ao defender Lula como se ignorasse o estrago que o PT lavrou naquela unidade federativa com várias gestões e tudo expresso numa crise fiscal sem precedentes. Mas ele pode repicar que seu sucessor no Paraná fez o mesmo.

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