LUIZ GERALDO MAZZA
Vitimalismo de novo
Há uma tradição brasileira anexada à visão do homem providencial: o vitimalismo. E um dos mais marcantes foi o do suicídio de Getúlio Vargas que asseguraria a vitória dos partidos que o apoiavam na sucessão com JK. Tivemos nesses dois dias, desde a suposta delação do senador Delcídio do Amaral posteriormente desmentida, mas sem convencer, até o cerco em torno do ex-presidente Lula e seus familiares na 24ª etapa da Lava Jato, uma sequência asfixiante de notícias com as de ontem configurando um show midiático e que acabou levantando a bola do acusado, que domina como poucos a arte de falar com o público e com isso deixando mal os seus acusadores.
Não foi preciso a convocação dos diretórios petistas, feita ao desespero enquanto ouviam o acusado em Congonhas (houve quem se lembrasse do Galeão e os assédios de militares da Aeronáutica contra Getúlio e novamente a insinuante perspectiva do golpe, cantochão já transformado em estribilho) e depois a presença de Lula na Globo News como resposta aos constrangimentos sofridos foi suficiente e com capilaridade inegável para restabelecer o equilíbrio entre acusação e defesa. Aquilo que Lula deixou de fazer durante longo tempo, enquanto fluía a catadupa de denúncias e de suas ligações com as empreiteiras, e permanecia em silêncio nada obsequioso, foi largamente compensado com sua ágil oratória de base e ainda por cima, no velho estilo Brizola, com a claque ao lado para aquecer o background no apropriado recinto da sede paulista do PT.
Agora que houve, pelo menos na aparência, a quebra de serviço por parte de Lula, como num clássico de tênis, espera-se a recarga da força-tarefa da Lava Jato para o contra-ataque e com matéria substancialmente nova detalhando a tal carga dos contêineres apreendidos e que fatos novos colheram para justificar o alarido e o suspense que dominaram o dia dos brasileiros. O ritmo acelerado dessa etapa foi cercado de tantos cuidados e de uma suposta precisão diluída em grande parte pelo palanque que ajudaram a armar para o ex-presidente, que se não for enquadrado sob fortes razões o será para empunhar, outra vez, a faixa presidencial, inevitavelmente, uma vez que acuado e com a crise que a sua gestão e a de sua sucessora produziram no país já tem números próximos aos do seminovo Aécio Neves dá para imaginar o quanto capitalizará do ocorrido ontem para a sua próxima arremetida.
Acabamos vivendo ontem um momento essencialmente eleitoral e adequadamente nutrido por aqueles fatores indesligáveis da política a emoção em trânsito para a paixão. Era afinal um risco calculado pela força-tarefa e tudo ficou parecendo mais uma ameaça do que o final e conclusivo libelo acusatório esperado. Com a palavra e a ação a Lava Jato para não detonar o caminho até aqui percorrido.
Bolsonaro
Primeiro o Fernando Francischini queria faturar a presença do seu correligionário presidencial o Bolsonaro em Curitiba e se viu um tanto quanto atrapalhado pela referência desairosa do tal depoimento premiado do senador Delcídio Amaral. Seletivamente tudo que no testemunho atingia o PT era verdadeiro, mas sórdido e mentiroso o que atingia a sua pessoa, como aliás é o raciocínio do momento fratricida que vivemos.
Depois no empenho em "beliscar" feito eleitoral, ao saber que a APP e sindicalistas da CUT se concentravam à frente da Polícia Federal, fez convocação aos seus comandados para uma barragem contrária. É verdade que agora ele não tem a troupe de 29 de abril e muito menos o camburão. Também deu uma beliscada o Tadeu Veneri do PT, pré-candidato a prefeito da capital, com a sua interpretação aos acontecimentos em discurso doutrinário.
É claro apostando naquilo que foi dito acima: o vitimalismo, quando na verdade tem muito pouco do obreirismo partidário e por isso agrega votos de outras áreas que o enxergam até como um solitário justiceiro em suas ações no Legislativo.
Ipardes
O Ipardes se transformou numa peça-chave do governo Beto Richa na hermenêutica dos indicadores econômicos: assim procurou mostrar que em suas projeções a queda do PIB foi menor do que a nacional e graças ao agronegócio 3,8% contra 2,8%. Mas está difícil explicar que temos a pior renda per capita, apurada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domícílios Contínua, no Sul do país, perdendo de gaúchos e catarinenses como se já não bastasse a surra que levamos em indicadores sociais como escolaridade, expectativa de vida e segurança.
Folclore
Todo o mundo da oposição apostava na arregimentação das ruas no dia 13 como substrato de tudo que está ocorrendo politicamente no país, uma espécie de assentamento-síntese dessa processo. Agora, com as precipitações de ontem, se não tivermos até lá fatos novos, quem comandará a festa será os que estavam acuados e acusados e não quem oprime e acusa.





