LUIZ GERALDO MAZZA
Recuo estratégico
Beto Richa tem dado todo o apoio ao interventor Mauro Ricardo Costa, que começou a arenga com o Judiciário, todavia se viu obrigado a recuar, ainda que não desse todo o dinheiro que o TJ pretendia. Além do risco calculado de uma decisão do STF contrária, o governo não está em um bom momento no campo judicial com as operações Publicano e Quadro Negro do Gaeco em pleno e vigoroso andamento, o que pelo seu ineditismo sugere que ingressamos em nova fase institucional incompatível com a acomodação tradicional, aquela asfixiante relação de cordialidade.
Poucas vezes tivemos atritos entre os dois poderes, uma delas, aliás, entre os primos Bento Munhoz da Rocha e José Munhoz de Melo, governador e presidente do TJ. Embora com a condição de constitucionalista e docente da área na Federal, além de constituinte de 1946 como o chefe do Executivo, o desembargador criticava o fato de o governador ter vetado um aumento aos magistrados por ferir a iniciativa exclusiva do Executivo, já que havia sido proposto na Assembleia. O governador estava certo e o seu primo não distante errado, porém ajustado à uma demanda corporativa. Outra mais contundente foi a havida entre Alvaro Dias e o TJ por uma decisão que liberou dinheiro a um empresário em demanda com o Badep, banco de fomento. Em linguagem de palanque, o governador acusou juízes e promotor que intervieram no caso de merecerem andar de uniforme zebrado de detentos e não adornados com as vestes talares da justiça.
O mais prolongado dos incidentes foi com o governo Requião, naquela greve de magistrados, e o caso de agora pelo menos felizmente se deu dentro da mecânica institucional. Beto Richa não tem porte para uma convocação de todos os poderes pela austeridade, embora o Mauro Ricardo Costa lembre dentro do governo o elegante capitão, aquele que ergueu a taça, na Copa de 1962 no Chile, também Mauro. Só que o da Fazenda lembra beque de fazenda com estilo de rebatedor, posto que correto nas intenções.
Inflação
O permanente jogo de braços entre prefeitura e governo estadual (visível, aliás, na bagunça que virou o ajuste dos cartões do transporte metropolitano e filas intermináveis) em algo converge simetricamente: o apoio na inflação, ora com as tarifas dos ônibus, ora, como se dá nesse preciso momento, com o aumento de mais de 10% na água e esgotos como já se dera, e de forma espetacular, com a luz. Merecem-se, nós não os merecemos como os maiores nutrientes da inflação que deu medalha de ouro pra Capital. Estatais comandam o processo sejam elas a Copel, Sanepar, Urbs ou Comec.
Tolerância
A defesa de Marcelo Odebrecht perdeu prazo para as razões finais alegando ter faltado luz para sua elaboração e conseguiu adiamento por parte do juiz Sergio Moro. Marcelo, de outro lado, negou que tenha autorizado executivos da empresa à delação premiada. Boca fechada dá uma inegável medida de resistência e para a minoria, que os apoia, de martírio.
Legisferância
A iniciativa da Câmara Municipal de até multar a quem crie qualquer tipo de dificuldade ao ato de amamentar em público é tão inútil como baixar um édito obrigando aos jovens cederem o lugar nos ônibus aos mais velhos. Questões comportamentais se constroem com o hábito e as campanhas educativas. Basta de legisferância, excesso, pletora de leis.
Ativismo do TC
Como está na pauta a degradação dos serviços de saúde em todos os níveis de governo, o Tribunal de Contas listou uma centena de municípios em que foram detectadas anomalias nos convênios existentes, muitos deles já flagrados pelo Ministério Público e a justiça.
Novas tecnologias
Um dos políticos a melhor valer-se das novas tecnologias têm sido o senador Requião, mas por um descuido quase pintou pelado num registro da internet. Em passado distante, lá pelos anos 50, século passado, o senador Barreto Pinto foi cassado ao posar de jaqueta e cueca para a revista nacional O Cruzeiro. Barreto ficou mais exposto do que o Pinto. Já Requião foi vítima de tocar num comando errado, algo como engolir semente de mamona e salvo por Lula, já que o efeito é explosivo e que movimenta foguete espacial sob óleo de rícino.
Folclore
Quando Munhoz da Rocha era governador nomeou desembargador (quinto constitucional) o seu correligionário João Alves da Rocha Loures, meu professor de Ciências Econômicas da Federal. Depois de pouco tempo de exercício, Loures pediu aposentadoria e Bento despachou argumentando que era legal, mas não moral aquela solicitação, por se tratar de uma pessoa em condições plenas de saúde a prestar encargos no Poder Judiciário. Como se vê uma certa dose de atrito entre Judiciário e Executivo pode ser saudável, sem ferir a autonomia de poderes e pessoas.





