Entrevero necessário
Pode ser saudável esse desencontro entre o Judiciário e o Executivo a respeito não apenas das verbas, que teriam sido negadas, como a propósito das destinações percentuais tanto a ele como ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas que foram substancialmente aumentadas na gestão de José Richa, o pai, em acertos permanentes entre Aníbal Curi pelo Legislativo e o desembargador Abrão Miguel do Judiciário.
Obviamente que não é, em princípio, aceitável um conflito intrapoderes, o que já foi condenado pela OAB-PR. Ocorre que há visões diferenciadas de um e outro poder e que poderiam ser objeto de acordo, levando algo que os entes públicos parecem ignorar: o peso de uma recessão que tende a perdurar e que exigiria de todos uma redução nos dispêndios e uma identificação de abusos passíveis de remoção. O governo, através do seu estrategista fiscal, afirma ser indispensável uma redução sensível nessas consignações.
Não há da parte de nenhum dos entes públicos, aí incluído o Executivo, qualquer tipo de preocupação com o tema e ninguém se dispõe a abrir mão de despesas que guardam todas as características de marajices, tanto aqui como em qualquer ponto do País. Não há, claro, a percepção das dimensões da crise e da sua durabilidade. Problemas, por exemplo, como o dos precatórios são tratados como se não estivéssemos sob o signo das novas tecnologias da informação, tal a complexidade que apresentam à falta de um consolidador do sistema e com um tratamento arrastado que o texto constitucional tentou corrigir em 1988 fixando prazos razoáveis para o seu pagamento e que foram obviamente dilatados porque, como lecionava Joelmir Betting, na prática a teoria é outra.
A OAB não vê com bons olhos essa tensão dialética, mas sua disposição de mediar atritos dessa ordem ou de qualquer natureza, especialmente quando se apresentam multifacetados ou quando carecem de maior clareza e explicitação, deve observar o contraditório. Por exemplo, quando da greve dos magistrados, no governo Requião, a OAB, não por unanimidade, a apoiou sem levar em conta a anomia representada por um ato dessa ordem semelhante a uma parede do Exército, que pesou como contribuição política mas soou inadequada com todas as características de resistência civil partida em nome de demandas do Poder Judiciário. O TJ, adequadamente, não apoiou a greve, todavia ela contou com praticamente um comando de instância superior, o Alçada, que chegou a pleitear o "impeachment" de Requião, que obviamente não andaria numa assembleia com um regulador como Aníbal Curi.
Não há progresso sem conflito e talvez esteja aí uma oportunidade para clarear o que se apresenta, em princípio como obscuro, e com os dois lados se valendo de eufemismos para respaldar suas respectivas posições.
Já o sindicato trabalhista, o Sindijus, muitas vezes em aberto choque com a hierarquia do TJ, ingressou com mandado de segurança para garantir salários e com sobras de razão porque está inteiramente à margem da pendência. Agora o TJ julga-se a si mesmo.

Bumlai
Há conflito entre a versão de Lula e do seu amigo Bumlai quanto aos empréstimos bancários a obras no sítio de Atibaia como se apurou ontem nos depoimentos de funcionários do banco Schain e também da Petrobras.

Acordo
Motoristas e cobradores da Capital aceitaram como reajuste a inflação acumulada de 11,3%. Aliás essa é uma característica da recessão: aumentos daqui em diante serão, na melhor das hipóteses, iguais à inflação e o mais das vezes, até para garantir o nível de emprego, menor ainda. Foi ajustada a única questão conflitual pendente o auxílio alimentação em R$ 500. Agora Urbs e Setransp dialogam sobre tarifa técnica que fundamenta a que prevalecerá, descontado o subsídio, para os pobres mortais sem direito a vale transporte, 60% dos que usufruem o sistema cada vez mais modelar para a dissolução completa.

Folclore
Essa briga entre taxistas e a Uber é, a rigor, uma disputa pelo ubre da vaca em que mamam, o monopólio e a reserva de mercado, um quer oferecer a moleza quase clandestina da carona no serviço e outro defender o cartório em que o mais insaciável, na cobrança de estipêndios, é a Urbs, um ubre oficial, em que muitos sugam como se fossem as tetas de uma imensa leitoa. Daí a recusa em cortar a taxa de gerenciamento no sistema pleiteado pelo Tribunal de Contas para fazer baixar a tarifa.

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