"Boa parte do PIB nacional no xilindró, muitos deles já apelando para a delação premiada"

De vilões e mocinhos
O dualismo da nossa tradição ficcional de opor mocinhos aos vilões se reproduz na política e com tal intensidade que só a vacina do fanatismo bloqueia. Por incrível que pareça há formas de fundamentalismo mais fortes que a das religiões e que invertem, de forma absoluta, o quadro brasileiro fazendo dos supostos agentes do bem – a Polícia Federal, delegados, procuradores e magistrados – a expressão de tonalidades do mal, como se vê numa campanha orquestrada por alguns juristas .
A forma como é conduzida a Lava Jato tem sido contestada, mas a ansiedade brasileira, que faz do combate à corrupção a prioridade maior, leva a maioria desconsiderar supostas lesões a direitos constitucionais suscitadas, é claro, por uma minoria de juristas, muitos dos quais advogados de empreiteiros indiciados e presos, o que lhes retira a isenção.
Há, é evidente, uma ênfase na punição, dada a forma como o Brasil tem tratado os casos do crime do "colarinho branco", posto que na decisão sobre a prisão dos condenados na segunda instância no STF, por sete a quatro, tenha produzido um divisor de águas entre especialistas todavia ao gosto da maioria, razão pela qual esse tipo de juízo é caricaturado e, de forma violenta, como "populista", isso é decorrente de uma justiça que corteja a plebe, a maioria e o momento como fatores psicossociais condicionantes. Isso não se confunde com os atos institucionais brazucas e sua versão mais violenta de Cuba com o emprego do paredão, que não é do BBB, mas das execuções em massa dos supostos inimigos da revolução que derrubou Fulgêncio Batista.

Festejos precipitados
Houve quem tivesse ido à catarse tanto com a relação dos cassados brasileiros como a dos fuzilados de Havana, apesar da diferença brutal do alegórico para o fatal. A simpatia com a revolução cubana era de tal sorte que uma rádio conservadora de Curitiba, a Colombo, ligada aos donos dos "associados", fez a cobertura das execuções. Como foram revoluções diferentes no porte e nas intenções seus efeitos poderiam ser ditos como populistas, já que pareciam galvanizar setores massivos da população.
A redentora brasileira se dizia comprometida com o combate à corrupção e à subversão, essa tonificada pela Guerra Fria e o divisor ideológico daí decorrente. Ela foi tolerante com a corrupção, pois a listagem de atingidos por essa motivação estava longe de expressar e realidade, e radical com a subversão que transformava qualquer pensamento, nem sempre vertido em ação concreta, em inimigo da pátria. Pois o grande adversário do Brasil, nesse momento, é a corrupção em sua formas sutis e também as escancaradas. Como o afano, o roubo, o desvio é a regra nos três níveis de governo, algo já transformado em praxe e, portanto, visto como normal, há quem não aceite o fato de executivos das maiores empreiteiras do Brasil estejam suportando o constrangimento da prisão sem um processo consumado.
Há quem os veja até como mártires como se fossem vítimas e não autores de manobras consagradas pelo costume, consuetudinárias portanto, daí o aspecto que alguns deles assume com sua forma de resistência até porque muitos deles não têm como e nem podem apelar para a delação premiada. Em alguns deles, caso de Marcelo Odebrecht, dá a impressão que isso tudo é um pesadelo e que curtem a convicção de que se livram dessa, tal a sua postura que não se confunde com os gestos de punhos cerrados der Zé Dirceu e André Vargas, esse à frente do presidente do Supremo Tribunal, o que o tornava mais insolente e ridículo e sequer caricaturalmente revolucionário.

Heróis e mártires
O que se dá com o Brasil nesse preciso momento é atípico distante do nosso conservadorismo e a tolerância com a impunidade: boa parte do PIB nacional no xilindró, muitos deles já apelando para a delação premiada porque conscientes dos seus crimes e buscando compensações ao cooperarem com a justiça. Para os que roubavam, embora querendo vender o peixe de que o faziam por uma causa (a luta pela ascensão dos excluídos), os que delatam são traidores, como inclusive disse a presidente Dilma ao confundir esse tipo de intervenção com a dos dedos duros do regime militar e que a levaram à prisão e à tortura.
O horror de todos eles está justamente na visão heroica que a sociedade guarda de Joaquim Monteiro no mensalão e agora com Sergio Moro, que abre espaço para tantos outros, com os desdobramentos da Lava Jato que entraram agora nos trilhos da norte-sul e leste-oeste, depois de andarem pelos bastidores da Nuclebrás e do ministério do Planejamento, o que foi parcialmente obstaculizado pela decisão do STF em torno do fatiamento do processo.

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