"Até o Papa João Paulo II, na glória da sua santidade, teve, semanas atrás, explorada a sua relação de afetividade com uma filósofa"



O universo privado

Ganhou destaque na semana a questão da namorada de Fernando Henrique Cardoso, tema já explorado anteriormente e agora com maior riqueza de detalhes. O caso tem alguma semelhança com aquele que levou o senador Renan Calheiros à renúncia e que volta desta vez com mais força a incomodá-lo na instância suprema da justiça. Uma das declarações da ex-companheira do ex-presidente foi a de que FHC teria pago dois abortos feitos por ela. Fernando Henrique, a esse propósito, se recusou a comentar o que chama de "questões de natureza íntima".
Até que ponto homens públicos podem impedir esse tipo de invasão em sua privacidade? Nos Esteites, uma simples mentira derruba um postulante presidencial notadamente se for caso de quebra de compromisso matrimonial, e aqui só depois de muito tempo, e às vezes por força de reconstituição histórica, como se deu com o livro que a neta de Getúlio Vargas escreveu, o tema é abordado. Claro que há as mistificações, como a acomodação empregada para justificar Clinton no caso da estagiária até na consideração do que seria, em seu desdobramento cênico, um ato sexual.
As pessoas públicas, ainda que tenham razão em proteger a intimidade, estão sujeitas e de forma sistemática a esse tipo de abordagem e hoje, convenhamos, mais do que ontem, como tal é o caso do mitificado Getúlio Vargas que o culto à sua figura também se estendia à sua mulher, dona Darcy, e cuja intimidade era, por força desse culto, sacralizada. Hoje, com as avassaladoras mudanças comportamentais e tecnológicas, já não existe espaço para esse tipo de proteção até porque informes, como o do fruto de filha fora do casamento com Alvaro Dias acabou sendo assimilado com a maior naturalidade, ainda que possa ter afetado os liames familiares por algum momento.
Até o Papa João Paulo II, na glória da sua santidade, teve, semanas atrás, explorada a sua relação de afetividade com uma filósofa, o que não impediu, embora a delicadeza do tema, a carga de insinuações. Se os beatificados e santificados não estão livres, imagine-se o que se trata com mortais comuns, mesmo os aureolados pela militância política e acadêmica e vistos como figuras exemplares .
Ninguém ignora o que se disse sobre a aventura amorosa de um John Kennedy, objeto também de estudos na historiografia e há, é claro, situações como a da heroína ítalo-catarinense, Anita Garibaldi, nome da avenida que passa à frente da Justiça Federal em Curitiba, hoje posta como referência de uma profilaxia em todo o País como um divisor de águas para separar aparências de fatos e impedir que a mistificação corruptora se mantenha viva. O universo mais privado desse país, o da corrupção, está justamente ali sendo devassado.

Amnésia

É possível que delatores premiados, como o fotógrafo Caramori na "Publicano", revelem dificuldades mnemônicas nos seus depoimentos, ainda que reafirmem o que disseram no testemunho original, a referência, por exemplo, ao eminência parda, primo distante do governador, Luiz Abi, a quem atribuem papel de liderança nas ações da gangue fiscal. Não apenas ele, mas também o companheiro de arrancadas automobilísticas do governador, o auditor Marcio Albuquerque Lima, indiciado no processo.
Na Lava Jato já houve algo parecido: a dificuldade de rememoriar uma ocorrência e até haver conflito em meio a depoimentos na aparência convergentes, choques flagrantes em meio a uma acareação.
É evidente que a experiência do Gaeco, braço do Ministério Público, não tem a densidade tanto da polícia como dos procuradores federais, mas seu feito é semelhante como ruptura da acomodação reinante, dos rituais de cordialidade intra poderes. Nos estados-membros é mais difícil esse tipo de devassa, como se vê em São Paulo nos fatos só agora admitidos dos desvios dos cardeais do tucanato nos chunchos dos trens e metrôs e agora mais recentemente no fato surpresa da denúncia do escândalo da merenda escolar. E está inclusive no episódio da trama do assassinato do prefeito de Santo André. Se no "olho do furacão" que é São Paulo há espaço para delonga e procrastinação aqui há muito mais. Daí a esperança de que o nosso Ministério Público, em função do momento especial em nossa vida judiciária, vá cada vez mais fundo na sua autonomia operacional, conquistada na Carta de 1988, mas que demorou para assentar.

Folclore

Há um esforço do lulopetismo, agora com as renovadas histórias da namorada de Fernando Henrique Cardoso, em restabelecer de que todos, inclusive aqueles que abandonaram a bandeira ética, são iguais, humanos, falíveis. Aí precisaríamos no fim dos tempos de que, já que todos são ladrões, Jesus voltasse para mostrar quem é o Dimas, o bom ladrão.

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