LUIZ GERALDO MAZZA
Destinos convergentes
Lula é ainda o maior fenômeno eleitoral do Brasil como Beto Richa o é também no Paraná, como demonstrou em sua reeleição levando tudo no primeiro turno. Lula se reelegeu e elegeu e reelegeu Dilma, Beto reelegeu-se prefeito, mas não teve êxito com seu vice Luciano Ducci.
Ambos se encontram em queda livre, alvo de denúncias comprometedoras e correm riscos parecidos, mas se conseguirem depurar-se nos processos sustentam possibilidades de nova arrancada em suas carreiras. O Paraná oferece melhores condições do que o Brasil para sair do enrosco fiscal e nesse aspecto o cenário ajuda o governador. A questão imediata de Lula é superar a contingência do impeachment de sua sucessora, todavia livrar-se ainda e de forma inquestionável dos casos do tríplex e do sítio que, mesmo afastada a conexão patrimonial, revelam uma liderança engolfada no mundo dos negócios suspeitos com as maiores expressões do poder econômico do Brasil e do continente.
Já as aparências prejudicam o governador paranaense em suas intimidades com pessoas envolvidas em desvios fiscais e também no caso das construções escolares. Claro que não há aí um quadro tão abrangente de suspeição, posto que até agora nem o ex-presidente muito menos o governador sejam objetivamente investigados, sob a força gravitacional de um desgaste aparentemente incontrolável.
Em termos de barragem política, pela maioria esmagadora que ostenta na Assembleia, que o serve com unção religiosa como se viu ao transformarem o camburão em confessionário em meio ao massacre fascista dos idos de abril, a correlação de forças favorece o governador. Porém Lula tem sintonia com as massas, o que não se dá, até pela dimensão regional, com Beto Richa. E há a mística do lulopetismo, o suposto e imaginário compromisso com as mudanças, que raramente se dá em termos provinciais, especialmente quando as pesquisas de opinião mostram o líder em queda livre.
Nada têm de semelhança nos propósitos, mas a convergência de situações ante as pistas de investigação e especulação os tornam próximos um do outro na adversidade. Outra coisa: nenhum deles ostenta hoje o nível de credibilidade que os consagrou.
A bomba
Uma frase profética, que aparece na revista Ideias deste mês, do advogado Antonio Figueiredo Bastos foi ontem muito lembrada sobre a defesa do senador Delcídio Amaral: "Esquece delação, não tem delação. Não precisa neste caso porque entendemos que temos condições de fazer uma ótima defesa dele". Muitos apostavam que o isolamento e também o abandono a que foi relegado pelo PT, como ocorrera com André Vargas, tratado como cadáver insepulto, poderiam levá-lo à delação e, durante todo o tempo, quem o manteve crente foi o advogado Bastos, hoje um especialista no tema como orientador, inclusive, do Youssef.
Pois o criminalista tinha razão: o ministro Teori Zavaski anulou a prisão preventiva e liberou Delcídio para as atividades parlamentares. Se ele criava uma expectativa de ansiedade com a hipótese da delação, agora certamente com o retorno ao Senado gerará um clima nada bom para o petismo. Aliás, em meio a esses acontecimentos, afirmou que o lulopetismo tem divergências com ele desde a condução do processo do mensalão, presidindo a CPI, na qual atuou como um magistrado.
Erro médico
Num momento em que qualquer falha no sistema de saúde (o Hospital de Clínicas sem insumos e matérias-primas, pacientes morrendo na espera nas UPAs, hospitais acusando a município de não repassar verbas) revolta e impacienta, houve o pior no Hospital do Câncer Erasto Gaertner: um erro médico na retirada do rim bom em lugar do condenado de uma hospitalizada. Estamos todos numa Unidade de Terapia Intensiva e submetidos ao terror.
Marina
Ontem em Ponta Grossa, hoje em Curitiba, a Marina Silva empenhada na sua Rede de Sustentabilidade para valer-se da janela para troca de partido. Apesar de sua condição de mito político-ideológico, a melhor das expressões do ambientalismo, ela também foi atingida pelo ceticismo em torno dos políticos e suas soluções.
Folclore
Uma das formas de caricaturar a cultura das misses era referir-se ao fato de que o seu livro de cabeceira era "O Pequeno Príncipe" de Exupéry. O curioso é que essa obra encabeça a lista dos mais vendidos do País há mais de dois meses e isso parece constituir resposta adequada à ironia tão mal colocada. Tivemos uma aqui, a Ângela Vasconcellos, Miss Brasil, que quase chegou lá, que tinha na cabeceira o preferido, mas também "A Metamorfose" de Franz Kafka, dialética respeitável, de tons que vão do lúdico ao sonambulismo.





