"Se os Dias estiverem na mesma eleição é claro que o sinal oligárquico, parenteral, ficará mais do que evidenciado"

A quebra da rotina
Muitas vezes políticos paranaenses se imaginam disputando a presidência da República. O último que a tentou foi Afonso Camargo Neto, uma de nossas maiores vocações, e que se deu mal por um "marketing" caricatural e até, como se imitando a Xuxa, se dirigisse aos baixinhos. Alguns até estiveram muito perto disso como Munhoz da Rocha, em 1955, quando o presidente Café Filho, seu compadre, o convidou para ministro da Agricultura com o propósito mediato de levá-lo a compor a chapa como vice. Isso se frustrou com a intervenção militar de Lott-Denis em nome do "retorno aos poderes constitucionais vigentes" e que levou o ministério (havia mais um paranaense, Aramis Ataide, da Saúde) a desfilar em protesto na Guanabara a bordo de navio brasileiro, dentre os quais estava o Almirante Pena Boto, da Marinha, um dos radicais da direita de então.
O suicídio de Getúlio Vargas e mais essa mediação militar asseguraram a transição pacífica na vitória de Juscelino Kubitschek no simulacro de frente popular PSD-PTB já vitoriosa no pleito anterior. O postulante oficial era Juarez Távora, destaque da Coluna Prestes.

No colégio eleitoral
Outro ensaio, com alguma consistência, embora num conciliábulo militar, foi em favor de Ney Braga contra o preferencial Costa e Silva e que numa convenção interna, ainda que homologando os dois, foi favorável ao paranaense e que lhe rendeu alguns momentos de dificuldades com a alta hierarquia do regime que lhe proporcionaram acusações, já que como "pombo" estaria numa ala mais próxima de Castelo Branco e dos Geisel. Aliás numa audiência na Auditoria de Guerra, na qual figurei como um dos indiciados de crimes contra a Lei de Segurança Nacional, uma testemunha do Edésio Passos, companheiro de aventura, o jornalista Cândido Gomes Chagas exibiu cópia de um cheque que pagava reportagens do jornal Última Hora sobre os incêndios florestais que haviam atingido o Paraná. Assinava-o o reitor da Universidade Federal, Flavio Suplicy de Lacerda, aquele momento nada menos do que ministro da Educação do regime, autor do Decreto 477 que punia instituições acadêmicas e as enquadrava no rigor das restrições.
Houve um cerco a Ney Braga e testemunhei algumas das tentativas de enquadrá-lo como conivente com as esquerdas como era o caso do Última Hora que não resistiu ao fulgor punitivo da Redentora.

Alvorada com Alvaro
Nenhuma dessas tentativas prosperou e agora pinta mais uma com a postulação pelo Partido Verde do senador Alvaro Dias, esse efetivamente com condições de sair-se bem melhor do que Afonsinho, por uma série de fatores entre os quais de aparentar o "novo" em meio a tantos carimbados e ter a garantia de mais quatro anos de Câmara Alta, o que faria dessa tentativa um exercício experimental. Confia no longo tempo de exposição como a liderança mais engajada de oposição do PSDB com aquela vocação dominante para o equilibrismo do muro. Só no confronto com Aécio Neves leva a vantagem pela persistência de haver cumprido o papel e obtido com isso forte exposição na mídia, enquanto o mineiro se dava a ajustes de caráter multipartidário na sua campanha de governador, senador e presidente da República.
Como o Partido Verde é comprometido doutrinariamente com o ambientalismo, restaria a Alvaro Dias algum aprofundamento na matéria para postar-se como confiável aos desígnios de uma legenda engajada num propósito capaz de motivar o eleitorado, aliás alvo num sentido mais de metáfora da Campanha da Fraternidade deste ano.
Não é um livre atirador como o surpreendente Eneas, pois tem currículo e suas intervenções mais recentes o projetaram como a mais consequente liderança de oposição e evidentemente carecerá de capilaridade no partido para não ficar como um disputante regional e que está apenas testando seu potencial. Todavia, se o seu irmão, Osmar Dias, disputar o governo estadual ou na majoritária senatorial por uma das vagas, as coisas emplacam e com chance até de Alvaro figurar como o mais votado no Paraná como já ocorreu tantas vezes, inclusive a derradeira do Senado.
Se os Dias estiverem na mesma eleição é claro que o sinal oligárquico, parenteral, ficará mais do que evidenciado, mas esse tipo de escrúpulo não é tradição brasileira. Lembro inclusive de uma família do Nordeste, dos Rosado, do Rio Grande do Norte, em que o prenome era em francês e tínhamos numa seriação numerada o décimo quinto, o décimo sexto, o vigésimo Rosado.

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