A lei e a salsicha
Quem fez a comparação entre a lei e a salsicha foi Bismarck, não o centroavante do Fluminense, mas o estadista germânico, Otto Von Bismarck. Ele desenvolveu o seguinte raciocínio: se alguém quisesse saber como elas, as leis, são produzidas, bastaria observar uma linha de produção de uma salsicha. Se falou isso das leis, de um modo geral, imaginem o que diria das nossas Medidas Provisórias, alvo inclusive de uma investigação pesadíssima de compra e venda delas, que também tem a imanência de lei no tempo e no espaço brasileiros, ainda que com vigência pré-determinada, aguardando sua ratificação.
Como ressalta a observação irônica de Bismarck, não é preciso ir longe para ver inclusive como é produzida uma Constituição no Brasil, mesmo a saudada como cidadã pelo doutor Ulysses, a Carta Magna de 1988, a nossa derradeira e a mais aberta até hoje a todo tipo de lobby e que transformou o parlamento num estuário de todas as tendências e demandas. O pior inclusive ocorreu em 2003, quando como presidente do STF, o ministro Nelson Jobim, afirmou que numerosos artigos do texto não foram a debate e acabaram, inclusive, inseridos, dentre eles um referente à independência dos poderes. Essas surpreendentes afirmações levaram uma dupla de cientistas políticos a produzir o ensaio "Anatomia de uma fraude".
É claro que há momentos de grande sintonia entre o que produzia a indústria cultural do País, como a Rede Globo com uma concepção modernizada de "O pagador de promessas" e o debate da reforma agrária, porque o autor, Dias Gomes, premiado na versão mais ingênua do filme que ganhou a palma de ouro em Cannes, incluiu na série a ação dos sem terra e foi o suficiente para que o líder da União Democrática Rural, Ronaldo Caiado, pedisse a supressão das cenas do MST, pela circunstância de que naquele momento se discutia a desapropriação de terras produtivas. Foi um instante de modernidade pelo reconhecimento do poder massivo da televisão. E houve, sim, a censura ao texto de Dias Gomes em decorrência da paranoia que marca esse tipo de abordagem que na Carta de 1946 teve melhor compreensão tanto que se alterou o rigor do usucapião trintenário por formas mais suaves de ganho da propriedade, o usucapião "pro labore".
Vejamos, na sequência, quem vendeu e quem comprou Medidas Provisórias: o setor automotivo é um dos apontados como beneficiário. Ainda recentemente na crise mundial o governo dos Esteites ajudou, seletivamente, os bancos tanto quanto as montadoras. Para nós e o nosso moralismo tropical, um lobista, atividade até hoje não regulamentada, é algo próximo da gangesteria, como se denota nos desdobramentos da Lava Jato.
Ora, diria um humorista curitibano, as salsichas a que se refere Bismark nem de longe se comparam com as nossas, aquelas saborosíssimas do Bizineli.

Boataria
O presidente da Boca Maldita de Curitiba, Anfrísio Siqueira, costumava dizer que o boato pode ser o embrião da verdade. E ele o dizia no tempo do regime militar, até para mostrar que a ausência de informações claras leva à proliferação, sem a letalidade um zika vírus, das versões sofisticadas ou grosseiras dos boatos. Londrina vive uma quadra psicossocial delicada por falta de clareza das autoridades quanto às origens e finalidades da onda criminal que a sufoca e angustia. Como se não bastasse tudo isso, a notícia do fechamento de agências bancárias, alvo de assaltos, ajuda a sustentar a cultura do pânico e agora tivemos o motim da prisão de Palmeira, cidade pacata e à margem da violência dos médios e grandes centros urbanos, com deslocamento obrigatório de rebelados para Irati e Ponta Grossa.
Desde a passagem do Depem, Departamento Penitenciário da Justiça (o que a esvaziou de forma radical) para a segurança, foram contidas as manifestações e, por essa razão, algumas versões indicavam como possível o registro da mortandade como decorrente dessa circunstância, o que a autoridade jamais admitiu por força dos relatos dos seus serviços de inteligência. Ainda que sempre condenável, ainda mais com o domínio das redes sociais que superdimensionam as coisas, resta reconhecer que falta informação.

Atrás de assinaturas
Até agora só dez assinaram o pedido de CPI para o chuncho do "Quadro Negro". Dificilmente haverá como completar a lista com mais oito deputados. A alegação de que o governo tomou as primeiras providências, o que é meia verdade, pois o denunciante do chuncho foi demitido, e que o Ministério Público estadual, pelo Gaeco, opera todas as diligências de praxe não vacinam a gestão Beto Richa contra os desgastes que são mortais como os da Publicano, por destacarem o fato de haver convivência afetiva do governador e até parenteral com denunciados. Só falta a bancada do governo fazer um manifesto em que confia nas conclusões do Gaeco, o que obviamente nada tem de inteligente.

Folclore
Se as leis em sua origem lembram o fabrico de salsichas, o das Medidas Provisórias, alvo da operação Zelotes, podem até ter problemas de vigilância sanitária.

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