"Enfim há de tudo nos cânticos: do conformismo à revolta, da contemplação à simples curtição dos sentidos"

Engajamento e arte pela arte
As contingências da arte, se engajada ou disponível, se repetem na produção carnavalesca, apesar de todo o impulso para a liberação dos esquemas. Essa cobrança foi apropriada aos anos 50-60 dos mais densamente ideológicos, quando o maniqueísmo impunha o rigor de duas alternativas bastante rígidas, a do progressismo oposto à alienação, uma camisa de força antes de tudo burra como seria dizer que a arte pela arte se negaria em si mesma.
Não pega muito bem no carnaval exercícios ideológicos quando o caminho é o da dissipação e da busca do prazer. Há coisas um tanto quanto engajadas como a estória do pedreiro Valdemar que faz tanta casa e não tem casa pra morar, um tema ainda atual face a permanência da crise habitacional. "De madrugada toma o trem da circular, faz tanta casa e não tem casa pra morar." Não tem a densidade dramática do Pedro pedreiro, mas dá um toque em questão social, pois afinal ele "constrói um edifício e depois não pode entrar".

Até um pouco de Sartre
Obviamente o forte é a marchinha, algo mais adequado ao ritmo da festa, que traça conceitos até de cunho filosófico sobre existencialismo como em "Chiquita bacana lá da Martinica se veste com uma casca de banana nanica, não usa vestido, não usa calção, inverno pra ela é pleno verão", existencialista com toda razão, só faz o que manda o seu coração. Já não temos como até os anos 70 no século passado a produção voltada para a festa momesca. Agora, com os fatos da Lava Jato, já se criou a história do japonês da Federal.
O forte sempre foi exatamente o imediato, a crítica de costumes, como o da casta Suzana: "Eu conheci a tal Suzana, a casta Suzana, lá do posto seis, coitada, como está mudada, teve apendicite e ficou sem it". Se a insinuação é a de perder a virgindade, percebe-se um rebuscamento em narrá-la para tudo ficar cavalheiresco, adequadamente de salão, mas correspondente à época menos solta como agora.

Exaltando a serpentina
Era uma espécie de jogos florais como aquela surpreendente narrativa da galinha que botou um ovo azul: "O fato causou sensação, o galo não foi na conversa, no dia seguinte matou o pavão". Ou a do galo que canta fora de hora que é moça roubada ou mulher dando o fora.
Há o culto aos elementos do carnaval, como o confete e a serpentina. "Confete, pedacinho colorido de saudade, ao te ver na fantasia que usei, confete, confesso que chorei." Uma das melhores composições de crônica é a da serpentina: "Guardo ainda bem guardada a serpentina que ela jogou, ela era uma linda colombina e eu um pobre pierrô, guardei a serpentina que ela me atirou, dancei com a colombina até às sete da manhã, chorei quando ela disse vou-me embora, até amanhã, pierrô até amanhã".
Não se ajusta ao carnaval o cerebralismo dos ideólogos, mas há saques bem marcantes em termos sociais como aquele: "Trabalho como um louco, mas ganho muito pouco, por isso vivo sempre atrapalhado, fazendo faxina, comendo no china, está faltando um zero no meu ordenado". Há uma tradição de conformismo no exaltar a pobreza como o barracão no morro é bangalô até porque quem mora lá no morro já vive pertinho do céu e vamos exaltar a passarada ao amanhecer com a sinfonia de pardais.

Um mix variado
Enfim há de tudo nos cânticos: do conformismo à revolta, da contemplação à simples curtição dos sentidos ou carregar nas caricaturas como a dos carecas: "Não precisa ter vergonha, pode tirar o teu chapéu, pra que cabelos, pra que seu Queiroz, se agora a coisa está pra nós". E há outra em favor dos gagos: "Tá tá tá na hora, va va vale tudo agora, sou mó mó mole pra fa fa falar, mas sou um Pintacuda pra beijar". Pintacuda, esclareça-se, era uma espécie de Ayrton Senna da época.
E as criações por vezes serviam os políticos como o retrato do velho pela volta de Getúlio Vargas nos anos 1950: "Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar". Como na guerra houve charges exaltando Getúlio e mexendo com o eixo: "eu quero ver o Hiroíto aflito, comendo arroz com palito nas ilhas de Salomão". E outra sobre Hitler, hoje em moda por causa do "Mein Kampf", ora liberado, em que se exalta Getúlio e se escracha o alemão: "Quem é que usa um cabelinho na testa e um bigodinho que parece mosca? Só cumprimenta levantando o braço e e e ê palhaço. Quem tem um Gê que representa a glória e um Vê que ficará na história e um sorriso que nos dá prazer e e e ê vitória!".
Como os heróis da estórias em quadrinhos fizeram parte do esforço de guerra também o criador popular, carnavalesco, entrou nessa, engajado e com a mão sobre o coração como se cantando o hinário patriótico numa trincheira imaginária.

mockup