LUIZ GERALDO MAZZA
Compensando culpas
A tese agora na base aliada do governo Dilma Rousseff - a de esquadrinhar os malfeitos dos seus adversários - visa naturalmente restabelecer aquele axioma cínico de que tanto os pequenos como os grandes vícios da corrupção fazem parte da rotina administrativa e que por isso é pedagógico revelar essa constância como praxe brasileira. Essa tese é antiga, posto que haja diferenças marcantes, por exemplo, entre o mensalão e o petrolão e também perceptíveis entre o articulado da Lava Jato e as apurações tanto do escândalo da merenda escolar recentíssima como daquela história ainda mal contada dos trens e metrôs do tucanato.
Daí, como estamos em ano olímpico, seria o caso de ver quem roubou mais e com quais intenções, já que um teria compromissos de mudanças que o outro não tem, como a de reduzir os níveis de desigualdade, conforme se viu nos dois governos Lula. A ideia de uma defesa cerrada tanto de Lula como do partido revela-se imperiosa para estancar o desgaste que ela provoca na maior figura da nossa política em feitos eleitorais submetida hoje a um cerco que não se viu nem com o ocorrido com o primeiro presidente eleito diretamente, depois dos anos de chumbo, como Collor.
Mística de um líder, ainda mais no caso brasileiro, que cultua como ninguém, a tese do homem providencial, por mais bem assentada, se não preservada, se desfaz como bolha de sabão.
Se tanto no caso do triplex na praia como do sítio ficar, ainda que não provado qualquer indício patrimonial do ex-presidente, ainda restará o peso dessa proximidade exagerada entre empresas que gravitam em torno do governo, o que também configura tradição brasileira, submetida aos simples depoimentos de figuras anônimas que ora confirmam a chegada do barco de dona Letícia e ora se referem ao fato de que viram o presidente e a esposa mais de uma vez no apartamento da OAS. E estão nesse varejo, disseminado como um boato repetitivo, seguido daquele tom de surpresa e espanto, a força maior da corrosão do metalúrgico, metamorfose maior da vida brasileira, a do operário que se fez presidente.
Um levantamento com os pecados mortais dos adversários, como se dá no caso de Eduardo Cunha, o que lhe retira moral para conduzir o impeachment de Dilma Rousseff, ainda mais quando apoiada na chantagem aberta que faz ao Supremo Tribunal Federal, trancando a pauta parlamentar enquanto a Corte não decide o ritual do impedimento, pode até ser saudável para o País, mas está longe de operar como fator de absolvição. Quem sabe se crie um caso como o dos dois ladrões que foram crucificados com Jesus e com ambos os contendores querendo passar por Dimas, tido como bom e ungido pelo Salvador antes da morte e da ressurreição.
Terrorismo explícito
A cronologia ontem do pagamento dos salários de cobradores e motoristas que submeteram a Capital ao risco de uma greve selvagem, é na verdade um locaute associativo, no andamento do carnaval e, antes de tudo, um ato de terrorismo. Apesar das declarações do cartel de que a hipótese da parede estaria afastada e também da injeção de recursos, outra vez, pela Urbs o andamento das informações à medida em que ainda o pagamento de empresas, tanto urbanas quanto as metropolitanas, não era realizado criavam o clima de ansiedade e transformavam os milhões de curitibanos em reféns de uma chantagem que perdurara, enquanto o pau da barraca das concessões não for chutado.
Na perspectiva do pior, que seria a paralisação do serviço, esperava-se novamente a cautela por parte da justiça especializada da frota mínima para minorar os padecimentos dos usuários. Tudo isso, enfim, um refinado jogo terrorista, do qual o poder concedente, a prefeitura e Urbs, não é apenas vítima, mas também um operador eficiente, já chamado por suas hesitações e falta de pulso de poder condescendente.
A subvenção
Uma praxe da praça, tanto municipal como estadual, é a da subvenção da mídia, diretamente às empresas ou dirigida a alguns comunicadores, como se da nesses casos de vereadores supostamente beneficiados pelo hábito e no atual momento condenados pelo Tribunal de Contas como sequela dos eventos com o ex-presidente da Câmara, João Cláudio Derosso, que a dirigiu por 15 anos e que só teve problemas depois de sua queda. Tanto a Câmara Municipal como o Legislativo estadual, durante razoável tempo, costumavam remunerar jornais e revistas por resumos de suas sessões e essa questão de pagar horários de comunicadores no rádio e na tevê era tradicionalíssima em benefício de legisladores, mas também das emissoras. Agora saiu nova lista de ex-vereadores incluindo Algaci Tulio, que já foi vice-prefeito de Curitiba, Luis Ernesto e Tito Zeglin.
O rigor do Tribunal de Contas é seletivo, a dureza é maior em cima de municípios ou de vereadores do que com o poder público estadual diante do qual a regra é a da cortesia e da tolerância.





