LUIZ GERALDO MAZZA
Tudo a temer
A missão pela unidade do PMDB começou em Curitiba como se estivesse reproduzindo a sequência de comícios das Diretas Já, acontecimento historicamente muito mais importante, de um tempo em que o partido expressava mais confiança e era menos pragmático do que hoje. Não há como unir o partido em torno do impeachment, que os mais oportunistas viram como a bola na marca do pênalti para assumir tudo e não apenas retalhos do poder, como não houve na convenção nacional que deu apoio a Dilma, na qual o dissenso quase botou em risco o esperado consenso.
Aliás, no Paraná não há como unir o partido: de um lado o melhor eleitor, que é o senador Roberto Requião, e de outro os melhores quadros da agremiação até hoje, meio encabulados, mas ainda em adesão a Beto Richa, praticando o exercício tradicional de partilhar o governo, no caso o da aldeia que pode ser mais significativo para o propósito de deputados estaduais e federais em suas ações de assistencialismo parlamentar.
Não há como lembrar que o PMDB já teve candidatos mais aptos do que os que brigam pelo domínio da futura convenção, representados por Michel Temer e Renan Calheiros: não dá, e isso em hipótese alguma, para comparar sequer com Orestes Quércia e muito menos com Ulysses Guimarães, mas que tiveram desempenho pífio nas duas experiências, ainda que o partido tivesse levado a melhor nas proporcionais e mantido a tradição de maior bancada, consequentemente com poder de fogo para a sua vocação maior: a de partilhar.
Tanto no tempo do regime militar como na fase de abertura ele se dividia em "autênticos" e os realistas, chamados de "fisiológicos". Na atualidade não há autênticos, soariam no conjunto como uma contradição em termos. Pelo jeito vai dar tudo a Temer, o que é quase tudo a temer.
Mordomia em questão
Todos os governos sempre tiveram o seu serviço de mordomia. Como o tempo a semântica da palavra se tornou chocante e desfavorável, embora não se possa dispensar mordomos na prática do poder seja ele de qualquer um dos três no esquema de Montesquieu. Pois bastou o presidente do Tribunal de Justiça ter baixado um ato relativo aos dispêndios com garçons e maitres e houve chio geral como se isso não fosse imanente ao exercício de funções públicas.
A bronca mais indignada veio do Sindicato dos Judiciários, dos trabalhadores do poder, que trava com a direção uma saudável competição, inclusive denunciando abusos como festerês e marcando posição firme no caso do"auxílio moradia" argumentando que as deficiências da máquina de gestão são de tal ordem que acabam esquecidas com essa inversão de prioridades.
Da mesma forma que se aboliu a mordomia pelo simples temor do enunciado há o mesmo com a antiga denominação das secretarias que levavam a expressão de negócios do governo, negócios de obras, negócios da educação. É que o negócio acabava deixando uma redundância em aberto em torno das suspeitas em torno do que se fazia.
Esse temor com as palavras não implica em mudança de atitude, de comportamento, tanto que as mordomias e os negócios persistem.
De qualquer forma, o ocorrido repõe em foco o que o secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, disse a respeito das "ilhas" de prosperidade em certas áreas do poder. Mas, aí, quem falha é o governador por não exercer a liderança e não pleitear que os demais poderes respeitem a quadra recessiva que enfrentamos.
Silêncio
Há um estranho silêncio na área de segurança em torno do incêndio de um clube de motoqueiros da Vila Guaíra na capital. Há alguns anos houve um conflito com um motoclube de Ponta Grossa e com morte.
Gangue familiar
A polícia prendeu pai e mãe de uma quadrilha de assaltantes. Agora, vai atrás dos filhos para acabar com o lema de que "família que assalta unida permanece unida" e que ignora por método a existência de Dona Justa.
Folclore
Michel Temer disse em Curitiba que o Brasil não pode viver apenas em torno da Lava Jato como se eles, políticos, não estivessem envolvidos até o pescoço nas investigações. Adotam, como fazem algumas autoridades, um distanciamento brechtiano da questão embora denunciados como beneficiários de propinas em suas campanhas eleitorais. A 22ª operação chamada de três xis lembra que vai além de xixi, um jatinho insignificante e investiga o uso de apartamentos no propinoduto.





