Armistício frágil
Melhorou muito o posicionamento do Judiciário trabalhista em greves de atividades essenciais como a do nosso transporte coletivo, metroviários ou ferroviários. Aquele "fair play" no respeito aos rituais cabalísticos das conversações tornavam o seu papel um tanto quanto contemplativo, algo inaceitável pelo desequilíbrio que isso representava para a esmagadora maioria da população deixando a destinação entregue a um pingue pongue verbal intermediado pelo TRT. Agora já se estabelece, de saída, a obrigação de manter a frota mínima em percentuais negociados e impostos axiomaticamente como indispensáveis para garantir o serviço público sem lesão ao sacrossanto direito de greve, outra santidade dos nossos dias, mesmo quando abusiva. A falta de pulso à prefeitura da capital, expressa na Urbs, anula o princípio da autoridade do poder concedente, afinal o primeiro árbitro da relação contratual, hoje submetida a uma encenação bem solerte dos sindicatos patronal e obreiro: o primeiro não paga e cria as condições para a parede do segundo, uma espécie de simbiose de greve-locaute.

Duro enfrentamento
Dois prefeitos, ambos militares, o major Ney Braga e o general Iberê de Mattos, enfrentaram nos anos cinquenta, século passado, dois locautes. Ney empregou carros do Exército para substituir os ônibus e Iberê foi mais longe ao ter que localizar na Região Metropolitana a frota escondida e obrigá-la a retomar os serviços. No segundo caso, Moysés Lupion era o governador e acabou intervindo na disputa, abertamente em favor dos empresários, entre os quais tinha correligionários como Erondi Silvério, ao encampar o serviço e passá-lo aos cuidados do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e ao seu Departamento de Serviço de Transportes Coletivos (DSTC). Foi um acontecimento épico em que o melhor desempenho foi o do setor jurídico entregue ao procurador Edgar Távora, que já foi vereador em Londrina e também deputado estadual, numa área em que hoje a advocacia pública leva a pior em qualquer confronto, como temos seguidamente constatado. Basta lembrar que o ato arbitrário de Lupion foi derrubado no Tribunal de Justiça. Dentro de alguns dias se consuma o frágil armistício, não rompido ainda pelo não pagamento do vale, estabelecido pelo sindicato trabalhista de que só faria greve no dia 5 de fevereiro, aí com a consumação do pagamento do mês e às vésperas do seu novo contrato coletivo, onde teremos a parte mais aguda do fervedouro pela circunstância de que o item salarial é o mais pesado da planilha que fundamenta a tarifa.

‘Mediação’ do TC
Uma das questões colocadas pelo Tribunal de Contas para baixar as tarifas foi a de suprimir a taxa de gerenciamento, de 2%, absorvida pela Urbs e também a de cortar os 3% sobre a folha geral de pagamentos para um tal Fundo Social em favor do sindicato de motoristas e cobradores. A Urbs argumenta que não sobrevive sem isso e o Sindimoc também que mantém, graças à grana, serviços de saúde e, mais do que isso, de assistência aos seus associados. Herança do pacto anterior ao longo dos 30 anos de gerenciamento da Urbs e que acumula vícios de mais de meio século. Obviamente para encarar problemas desse porte há carência de estadista ainda mais quando tivemos muita conveniência ao longo do tempo e que gerou, como no caso da engenharia de sistemas, uma capitania donatária na cidade, o Instituto Curitiba de Informática, que detém o monopólio sobre informações codificadas e que só agora, e isso ainda de forma extremamente cautelosa, é encarado pela atual gestão, levando tais relações contratuais, originárias no período Lerner-Taniguchi, a exame judicial.
Nunca, nem a Câmara Municipal, normalmente comprometida com o pacto, quando o sindicato patronal chegava a eleger seu presidente, e muito menos o Tribunal de Contas deram qualquer atenção à concessão, o que só aconteceu muito recentemente e também os vereadores jamais fizeram uma CPI como a havida. Pois a despeito desses ganhos, mais a intervenção da sociedade organizada, que chegou a pleitear ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, a ofensiva é mais dos sindicatos patronal e obreiro do que do poder concedente, razão pela qual há uma espécie de expectativa de que Gustavo Fruet ainda nos surpreenda no curso das próximas negociações com uma atitude positiva e que sirva ao menos para reduzir os desgastes eleitorais que sofrerá, de forma inevitável, com o reajuste das tarifas e que se dará em meio a protestos e até tumultos como se viu nas programações de entidades estudantis e movimentos populares com ensaios na via pública anteontem.

A desmistificação
Como a direita é encolhida e há quase um monopólio da esquerda, ou pelo menos do que se apresenta como tal, nos choques do transporte coletivo tivemos um momento de desmistificação em torno de que a verdade esteja mais na direção do infravermelho do que no da ultravioleta do espectro ideológico: Edgar Távora, integralista, seguidor de Plínio Salgado, era o procurador de Iberê de Mattos, populista à sinistra como esses de hoje, na prefeitura da capital e graças ao seu zeloso desempenho houve a vitória contra o locaute do cartel dos ônibus. Mesmo isso que chamo de esquerda genérica, tal qual os remédios lançados pelo José Serra no Ministério da Saúde, se rendeu ao talento e à combatividade do galinha verde, defensor da democracia orgânica, cujas raízes mais profundas estavam nas corporações de ofício da Idade Média.
Outra coisa: foram também da direita e guinaram para a esquerda, ex-integralistas como Santiago Dantas, dom Helder Câmara, Alceu Amoroso Lima e Roland Corbisier que perto do golpe de 1964 comandava o Iseb, fábrica de ideologia com mix de socialismo, revolução e nacionalismo, uma suruba bem nossa.

mockup