Argumentos iguais
Há mais do que a raiz socialdemocrata comum no PT e PSDB, aquele mais obreiro e este melhor vinculado a profissionais liberais, sua linha de argumentos quando referidos em desvios e informes de propina é siamesa, a mesma e com igual organicidade. Se a campanha que os reelegeu é acoimada de vícios irreparáveis como a de ser drenada por recursos advindos de trutas lá vem a resposta igual: nada procede porque as contas foram aprovadas pelos tribunais, tanto o nacional quanto o regional.
Nunca na história do Paraná e do Brasil tivemos dirigentes dos dois partidos, na presidência e no governo, tão referidos como beneficiários, diretos e indiretos, de irregularidades. Claro que no âmbito federal do Judiciário há mais fluidez do que na Justiça estadual, condicionante decorrente do nosso federalismo e do peso nos ambientes locais das amarras da sociedade cartorial.
As referências são impactantes quanto ao emprego de recursos desviados para as campanhas de reeleição. No caso nacional inclusive a ex-ministra e ex-senadora Marina Silva entende que focar o exame dessa questão, a da contaminação da campanha, como prioridade maior do que o pedido de impeachment até por sua origem suspeita é inquestionável.
Das primeiras reações no base do "eu não sabia", quando eclodiu o mensalão, chegamos a esse avanço retórico sugerindo que a aprovação das contas nos tribunais eleitorais teria um poder de ablução de água benta porque elidiria fatos com origem criminosa. A única igualdade até agora conquistada foi essa – a da ironia caminhando para o cinismo.

A multa
Apareceu agora nada mais nada menos do que uma multa captada pelo radar quatro minutos antes da colisão do carro do ex-deputado Ribas Carli com o conduzido pelos dois jovens. Com medo de sofrer constrangimentos, só agora o motorista multado botou a boca no trombone ao perceber, é claro, a mobilização para blindar o autor do crime. A multa foi enviada para o Gaeco, que afinal não estava operando no caso, já que isso se achava sob cuidados da polícia judiciária e setores próprios do Ministério Público.
O fato é que há agora o argumento de que o radar que captou esse "frame" fica situado num ponto após o local do sinistro. Mesmo assim suscita aquela dúvida que já alimenta a ficção urbana de que haveria outra pessoa relevante, social e politicamente, que participaria do "pega". Como ficou visível a intenção de proteger o parlamentar desde os primeiros momentos há uma tendência natural à visão conspiratória por culpa justamente da imagem nada favorável do poder.

Momo
Antonina recuou na intenção de não fazer o carnaval: feitos os cálculos do custo-benefício chegou-se à conclusão que o melhor era botar na pista escolas de samba e blocos para sustentar um comércio combalido em seu setor de hospitalidade, hotéis, pensões e seus famosos restaurantes. O argumento do prejuízo econômico face a riscos epidêmicos não bem identificados levou tanto a prefeitura quanto a comunidade à conclusão de que Momo oferece menos riscos do que o mosquito.
Paranaguá já não pode fazer isso porque apesar de ter um carnaval bem mais expressivo, com maior número de escolas de samba, encontra-se diante de um surto epidêmico que aconselha evitar ajuntamentos com os dos rituais carnavalescos que ficariam transferidos para a festa de aniversário da cidade, isso se o mosquito baixar a bola.

Ambivalência
O criminalista Figueiredo Basto, engajado na defesa clássica dos seus clientes, mas também aí incluídos alguns delatores, quer pleitear a anulação da gravação de Cerveró que complica seu outro constituído, o senador Delcídio do Amaral, ex-líder do governo, pelo qual se empenha para que não se ligue na condição de colaborador do Ministério Público. Essa ambivalência é apropriada ao processo já que o advogado sabe dos ônus decorrentes de uma delação, embora haja da parte de investigadores o máximo empenho em que o senador, que conhece as intimidades do governo e também da Petrobras onde operou, se abra para maior enriquecimento da denúncia.

Celebração
A polícia contabiliza como feito importante a redução de estouro de caixas eletrônicos entre 2014 e 2015: 204 contra 172 e, ainda por cima, com 130 presos. Pergunta-se no que deu aquela prisão de vários PMs como suspeitos de atuarem em conexão com os bandidos. No caso da queda das explosões se deve também à redução de caixas em supermercados, shoppings, mercearias, rede hospitalar por temor aos ataques. Com menor número de alvos, menos ataques, obviamente.

Folclore
O medo é uma das armas do fascismo, a intimidação com fundamento subliminar para que as pessoas calem. Foi uma espécie de mecanismo psicológico desse porte que levou um cidadão ao temor de revelar que fora multado pelos radares quatro minutos antes da tragédia dos rapazes mortos, há mais de seis anos, pelo então deputado Ribas Carli. Questão do poder desequilibra tudo, tanto quando deixa de reagir à multa injusta como diante da justa que pode complicá-lo. Estamos ainda nas dores do parto da República e da democracia.

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