LUIZ GERALDO MAZZA
Paraná, o segundo?
De repente no ranking, publicado na "Veja", em torno dos estados mais favoráveis para fazer negócios, produzido pelo Centro de Lideranças Públicas e Consultoria Tendências, o Paraná aparece em segundo lugar com 80 pontos, logo após São Paulo com 90. Isso fez lembrar teasers e slogan do governo Paulo Pimentel, em 1966, com o "Aqui se trabalha", decalcado de Mussolini, e o alvo de ser o segundo estado do Brasil. Aliás, essas escolhas de marqueteiros parecem ignorar a origem do que criam como se deu com o "Requião tem razão", extraído a um só tempo de "A revolução dos bichos", de George Orwell, e de um saque também do bufão italiano "O ducce tem sempre razão".
O fato é que Pimentel trazia uma dupla de gênios da propaganda - Hiran de Holanda e Arnaldo Del Monte e mais o artista gráfico Wilson Andrade - como Lupion fizera, anos antes, com Sílvio Pessoa, craque no desenho e que na eleição fundiu meio rosto de Moisés com Getúlio Vargas e o efeito foi genial porque se tratava de um esforço para aproximar identidades e simetrias ideológicas.
Nos primeiros lugares
Naquele ranking referido, a média do Brasil foi de 37, enquanto nós com 80, São Paulo com 90, chegávamos a Santa Catarina com a medalha de bronze e 77 pontos. É no detalhamento dos vários itens que se percebe o maior absurdo, um deles dando ao Paraná, o primeiro lugar e com 100 pontos em segurança pública. Em infraestrutura (e é irônico lembrá-lo no momento em que os desastres naturais desmontam a malha montada em estradas, energia e telecomunicações) pintamos em segundo com 72 pontos contra o primeiro de São Paulo com 100.
Em solidez fiscal aparecemos em quarto lugar, com nota altíssima de 98 pontos, e Espírito Santo, lá na frente com 100, seguidos de Amazonas com 99 e Pará com 98. O que compõe esse item é o endividamento público e investimento.
Já em sustentabilidade social (saúde, desigualdade e saneamento) novamente no quarto posto com 86 à frente de Minas com 82 e atrás de São Paulo com 90, Rio Grande do Sul com 92 e em primeiro Santa Catarina com 100, quadro que repete estatísticas do IBGE como as gerais e aquelas da Pesquisa por Amostra Domiciliar.
No item educação (desempenho e taxa de abandono), São Paulo sai na frente com 100, Minas com 86, Paraná com 85, Santa Catarina com 84 e Distrito Federal com 79.
Se o governo não estivesse às voltas com denúncias como as da Publicano e Quadro Negro, se valeria desses dados na hipótese de construir uma agenda positiva, como fez quando o IBGE revelou que havíamos ultrapassado o Rio Grande do Sul em renda interna e agora aparecíamos em quarto lugar, nós que sempre estivemos em quinto por mais de 66 anos.
De tudo o que se disse nesse levantamento o pior certamente, para quem vive a realidade, é essa láurea em primeiríssimo lugar em segurança pública no cotejamento de homicídios, roubos e mortes no trânsito como as que tivemos recentemente na safra das festas de Natal e fim de ano, um Vietnã.
O Paraná tem uma capacidade de recuperação inesgotável testada, sobretudo, em acidentes naturais como os enfrentados nas geadas que fustigavam a cafeicultura como as estiagens, enxurradas como essas mais recentes, vendavais, ciclones e tornados. Apesar do raquitismo do governo (Beto Richa anunciou que só tinha disponíveis R$ 5 milhões e assim mesmo parcelados para encarar os flagelos), o Paraná sai dessa como das outras vezes. Numa delas, lembro, Bento Munhoz criou financiamento para a lavoura intercalar do café (alimentos nos carreiros) e a resposta se viu prejudicada pela precariedade dos meios de abastecimento pelas rodovias e os trilhos.
O Paraná é também milagre: entre 1951 e 1954 se tornou o maior produtor mundial de café e o seu porto em Paranaguá, suplantando Santos, também universalmente o maior da especialidade. Como conceber isso com a nossa Estrada do Cerne, cheia de rampas, e completada pela heroica via da Graciosa? É pior ainda imaginar o porte dos caminhões daquele tempo para alcançar o feito.
Se superamos tantas dificuldades, inclusive a representada por maus governos, poderemos dentro em pouco chegar à recuperação que não seja apenas a nominal como a do levantamento referido, mas aquela que marca o nosso tom civilizatório como valor permanente.





