A hora da humildade

Nossos políticos, de um modo geral, se recusam a usar as sandálias franciscanas e preferem as visíveis no marketing televisivo. Há uma espécie de culto à soberba, obviamente, facilitado pelo cerco dos áulicos que olham o poderoso de plantão como um faraó dotado do poder divino.
Na primeira reunião secretarial, operada no meio da semana, percebeu-se que apesar dos sinais de recuperação no arrocho geral há preocupação com o ritmo das coisas que possam tirar Beto Richa da situação constrangedora em que se encontra. Insiste-se em falar de estradas e essas, até por sua péssima qualidade, notadamente as estaduais, foram cenários de um Vietnã sangrento, numa delas com oito mortes.
É claro que terão preferência rodovias já atendidas pelo sistema de concessão para o tal empuxe da duplicação, embora constem da lista algumas das nossas heroicas PR. No caso das pedagiadas o grupo de resistência tem obtido decisões que, na pior das hipóteses, brecam e dificultam qualquer perspectiva de acordo e de prorrogação, como defende abertamente a Faep por meio da sua mais forte liderança, Ágide Meneghetti.

O fato é que não existe um norte, um plano estratégico, conquanto o secretário de Planejamento, Sílvio Barros, tenha anunciado algo que o governador dificilmente assumiria, como a de ceifar direitos do funcionalismo, o que já fez no andamento do ajuste com o pior dos efeitos, visível nos 71,2% de rejeição popular e colocado em último lugar dentre treze colegas. Por sinal que, no primeiro esboço do plano de austeridade havia nada menos do que o corte de anuênios e quinquênios do funcionalismo seguidos do avanço no capital, até então inacessível do fundo de pensão, e do corte seletivo, e dirigido apenas ao pessoal do Executivo, do reajuste automático dos 8% como inflação acumulada até maio do ano passado.

Se estivesse mais consciente da gravidade da situação estabeleceria como líder (até em função de sua vitória eleitoral esmagadora) junto aos demais poderes um trabalho de persuasão em favor da sobriedade com os recursos públicos. Nada questionou nesse particular, preferindo a omissão enquanto havia abusos como o do auxílio moradia, ampliação de quadros comissionados e de concessões assistenciais que outras categorias não têm acesso.

Fala-se muito nos ganhos em termos de investimentos que descontados aqueles de estatais como a Copel e a Sanepar ultrapassarão em pouco aquilo que é praxístico. E pelo jeito o tal do Paraná Competitivo, que já foi a peça chave do governo, seu PAC da sincronia entre o público e o privado nas decantadas parcerias, das quais a mais efetiva continua a ser a do pedágio, perdeu força, pois não se ouve falar de conversações ou de pactos estabelecidos.

Presença nacional

Carecemos de mais presença nacional que não se limitem aos lances da Lava Jato que ora nos projetam bem quando ao lado da lei e ora mal com gente nossa implicada, cuja listagem tende a crescer. Temos que participar dos entreveros nacionais como o do impeachment da presidente quanto do bloqueio do presidente da Câmara Federal. O senador Alvaro Dias percebeu que não podia continuar no papel de "justiceiro" isolado nas trombadas com o governo enquanto a maioria dos seus companheiros se equilibrava no muro e, com sua decisão de ir para o Partido Verde, pode se colocar como alternativa presidencial num momento em que a quadra o favorece pelo que já acumulou ao longo e que saiba controlar intrigas como essa em que se diz que é favorecido pelo delator Youssef.

Como há uma crise nacional e a do Paraná não é ignorada, mormente depois do massacre de 29 de abril, Beto Richa precisa criar fatos nacionais na medida em que ficarem mais nítidos os sinais da nossa recuperação, da qual poderá ungir-se e com isso melhorar a sua popularidade. Temos uma tradição - e isso é histórico - de crescer nas adversidades como se dava nas estiagens e geadas que agrediam os cafezais e ganhando por isso mesmo o reconhecimento nacional. Isso exigirá, como já houve no passado, uma presença mais forte em institucionais, uma arregimentação agressiva para compensar tudo o que foi debitado como ônus no enfrentamento da crise.

Aí, sim, lembrar a conquista histórica do quarto posto como unidade federativa diante do Rio Grande do Sul fará todo sentido.

Memória

Quando o Paraná se transformou na maior potência cafeicultora do país e teve no Porto de Paranaguá o maior em termos cafeeiros do mundo, a estrada para o Norte era a do Cerne e para o Sul a da Graciosa. Foi em tais condições que chegamos a tudo aquilo e hoje, apesar dos gargalos, o cenário é bem mais favorável, razão pela qual devemos levar em conta que o nosso potencial produtivo de sociedade moderna e complexa há de ser um dos fatores da escalada.

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