LUIZ GERALDO MAZZA
O poder do discurso
Como a ala mais aguerrida do PT quer sinais de desenvolvimentismo, que no momento não há como se manifestar, em lugar das providências temos os discursos como o de que estão no disparo programas para estimular a construção civil e as montadoras, sabidamente dois setores com forte agregação de mão de obra. Como a comercialização de leves, caminhões e ônibus teve em 2015 a maior retração em 28 anos, ao cair nada mais nada menos de 26,5%. No Paraná a queda ainda foi maior como se um ciclone tivesse atingido as montadoras.
Há em andamento um projeto de renovação de frota (essa hipótese sempre foi cogitada desde a década passada) em elaboração conjunta por governo e empresa e que geraria incremento anual de 500 mil veículos por ano. Obviamente para que a substituição de frota andasse haveria um programa de financiamento, a mesma situação que se daria na hipótese da construção civil.
Como tudo ao menos indica que interessados se mexem, todas as hipóteses de trabalho são postas no debate e a presidente, a propósito, voltou a falar no PAC que até aqui se deu mal, mas ainda alimenta o discurso oficial.
Lembro de uma lição caseira: quando não havia sobremesa no almoço, minha mãe se ligava na definição do prêmio alimentar como o "último regalo". Quando não há saídas pelo menos a definição, o conceito e o discurso são sucedâneos, como se observa na cena brasileira.
Inflacionária
Dolores Ibarruri, a líder republicana da guerra civil espanhola, era a "Passionária" e Curitiba, em termos nacionais, é a "inflacionária". É que enjoada de tanto aparecer como modelo, exemplo de intervenção urbana, área de pesquisa de inovações, cidade cobaia para lançamentos culturais ou de mercado, resolveu expor o que tem de negativo e em que aparece em primeiro lugar no "ranking" nacional, título indiscutível e que ninguém tasca.
Até agora até os sábios de plantão evitaram uma interpretação do fenômeno, já que em pouco diferenciamos das metrópoles brasileiras em termos de centrais de abastecimentos públicas e centrais de compras privadas, rede de super e hipermercados e também de shoppings bem como de experiências em feiras livres e alternativas como armazéns da família isso sem considerar que nos fatores locais temos de tudo como suprimento de água e energia, portos e aeroportos, rodovias e ferrovias, enfim todo o aparato logístico.
O fato é que cravamos 12,58% ao longo dos doze meses bem acima da média nacional de 10.67% .
Morte
Em meio à discussão se Paranaguá deve ou não vetar o Carnaval para ocupar-se da luta contra a epidemia da dengue houve o registro, ontem, da primeira morte, a vítima uma jovem de 25 anos.
Dá para imaginar a contaminação de alguém do exterior pelo problema quando esse tipo de situação patológica é inimaginável no mundo civilizado. E isso poderia ocorrer no front portuário. Aliás, foi aí que se deu em passado distante a tragédia com mortes em massa pela peste bubônica. Favorece o surto atual a baixa condição de salubridade persistente, de um modo geral, no litoral, causa eficaz do que se dá em outras cidades com a epidemia.
Viração
A imaginação é um dos instrumentais invocados nas crises: foi em meio de uma delas que um empresário inventou o "carro do sonho" que cresceu tanto que hoje se dá ao luxo de abrir licenciadas. Agora, num nível mais tosco, apareceu o "carro do ovo". Como no caso do sonho ele anuncia, na rua em megafone, o produto: trinta unidades por dez reais.
Tensão
Reuniram-se ontem no Ministério Público do Trabalho centenas de trabalhadores que perderam emprego na rede Walmart e em outras. Obviamente pleiteiam que seus direitos trabalhistas sejam rigorosamente respeitados enquanto providenciam seguro desemprego e entram na fila do Sine. Eis a ironia: em país de fartura você vai à fila do cine, do cinema, e na dos que se encontram em crise vai pra fila do Sine, Sistema Nacional de Emprego. Entre o "c" e o "s" um abismo.
Mas a Walmart surpreendeu: dos 189 demitidos que não desejam realocação em outras unidades da empresa ela se dispõe a sustentar assistência médica por seis meses e colocar experts em mercado de trabalho para orientá-los. Se esse tipo de para-choque operar em situações semelhantes será uma forma de abrandar os padecimentos. A empresa destacou que não haverá mais dispensa e que elas se deram por decisão nacional e identificação de unidades subaproveitadas.
Folclore
Emílio de Menezes viaja ao lado de Eduardo Prado quando passam diante de uma casa de tolerância de uma tal de Alice na zona rural. Disposto a desafiar o poeta nas artes do trocadilho proclama: "Ali se vive do amor". E teve que suportar a resposta de bate pronto: "E do ar do prado também".





